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agosto 16, 2013

Crítica: 'Círculo de Fogo' traz muita ação e pouca história - em néon

Ficção científica recicla histórias de monstros e robôs da cultura pop 


Hollywood tem chegado em um momento embaraçoso para si mesma. Enquanto roteiros geniais estão engavetados em escritórios dos grandes estúdios, pelo frequente medo de arriscar alto e amargar prejuízos - apesar de consultores acertarem com frequência - outros apostam em fórmulas batidas e orçamentos milionários (cada vez mais próximo do meio bilhão) que ganham aval de executivos e ainda assim, de vez em quando, não despertam um pingo de interesse do público. Círculo de Fogo (Pacific Rim, 2013) foi uma das maiores provas do ano, e além de provar o pouco apresso do público de casa com o longa, mostrou um interesse cada vez maior de uma audiência em ascensão: o resto do mundo.

O filme conta história de uma grande ameaça alienígena que brota das vísceras da Terra, onde foi aberto um grande portal superando a barreira tempo e espaço que a conecta com uma civilização pronta para destruir tudo - se apoiando em gigantescos monstros (Kaiju)  - e assim tomar conta do planeta. Com o passar do tempo e a evolução tecnológica, o governo e empresas privadas se juntaram para a construção de robôs gigantes (Jaegers) que lutam "mano a mano" com os Godzillas. Apesar da aparência "Transformers", essas máquinas de combate são controladas pelo humanos, geralmente, dois pilotos que também são exímios lutadores. Com a consciência compartilhada com a máquina e entre eles mesmos - no melhor estilo A Origem (Inception, 2010) - eles possuem uma capacidade de unir o melhor das armas, mas também a humanidade necessária para vencer os monstrengos.

A direção de Guillermo del Toro, que cada vez mais tem conquistado respeito na indústria norte-americana, trabalhando como produtor em diversos longas, sendo que recebeu convites para dirigir O Hobbit, O Homem de Aço e até, o ainda inédito, Star Wars VII, tendo recusado todos esses. Mas então aceitou esse desafio. Desafio, pois, não tem nenhum grande astro (apenas atores conhecidos de seriados) e ele dividiu a produção com o interessado mercado oriental - o filme se passa em Hong Kong e possui como protagonista uma japonesa. O diretor mexicano, que mostrou uma grande capacidade criativa com a fábula O Labirinto do Fauno (2006), parece ter entregue o jogo nessa produção "made in USA" para o resto do mundo. Apesar de se tratar de um blockbuster, daqueles com regras e formato definido (bem didático e fácil), poucas cenas que não são ligadas com ação realmente transparecem uma característica autoral. São situações retratadas com pouco aprofundamento que se apoiam em personagem estereotipados - o jovem americano rebelde e herói, o negro como exemplo de conduta e liderança (no lugar de um presidente), a oriental que preza pelo máximo de respeito, além dos cientistas e pesquisadores esquisitos e cômicos (um grande deboche para a ciência).


Por outro lado, a parte técnica é quase irretocável. Os combates entre os gigantes é excepcional, assim como a fotografia e a direção de arte. As cores são o grande trunfo que fazem Círculo de Fogo possuir uma identidade única, em meio a tantos filmes de robôs e ataques alienígenas. Desde o design das máquinas, até mesmo as mechas azuis da protagonista, tudo se torna relevante para deixar o filme marcante visualmente. O néon contrasta nas várias cenas noturnas, que está desde nos letreiros da cidade sendo destruída, detalhes dos monstros e até mesmo no painel de controle das máquinas. A trilha sonora também é muito bem intercalada marcando a tensão (apesar de mais uma vez se ouvir as trombetas de A Origem). Uma cena marcante - provavelmente a mais tensa e que percebe-se todo o talento do diretor - é quando se entra no subconsciente de Mako (Rinko Kikuchi). Ela, criança, se vê no meio do ataque de um monstro e a sua salvação por um dos robôs, o que lhe ocasionou um trauma, mas também um respeito pelo seu chefe (Idris Elba). A cena, excepcional, destoa de todas outras mais barulhentas e agitadas.

Círculo de Fogo é um filme ousado no sentido se oferecer entretenimento sem se apoiar em um grande astro - tática que volte e meia dá certo, basta lembrar de Avatar (2009) -, mas também no sentido de se passar fora do EUA - o que pode justificar o seu fracasso por lá. Porém, é uma obra que se aproveita apenas do que mais tem de superficial da realidade apresentada. Não vai a fundo em questões como o impasse do governo pelo projeto - esse acha que construindo paredões iria frear a ação dos monstros -, nem mesmo nas diferenças culturais, tudo acaba caindo no mesmo lugar, o EUA salvando o mundo e ficando com a mocinha no final (é tão infantil, que o sexo se dissolve em uma cena de luta cheia de tensão sexual subjetiva, além do protagonista aparecer bastante sem camisa). Os clichês irritam constantemente, assim como o clímax final, em uma tumultuada cena no fundo do oceano. Apesar dos equívocos, Hollywood tem se dado bem enxergando lucro em outros continente, que aceita sua fórmula cada vez mais misturada de gêneros e a diversão quase infantil para agradar a todos. Pena que o cinema é tratado dessa forma, afinal, Godzilla sempre foi apresentado como uma metáfora ao ataque dos Estados Unidos contra o Japão, mas hoje é referência para um filme com roteiro banal e pouco marcante , da qual, busca lucro nessas redondezas. Curioso, não?

julho 28, 2013

Crítica: Divertido, 'Wolverine - Imortal' apresenta novos dilemas ao herói

A dor de ser imortal


Todo bom herói que se preze tem seu lado sombrio, sua complexidade em aceitar suas responsabilidades e seus momentos de fraqueza. Não é apenas de altruísmo que eles sobrevivem - o saldo é sempre desequilibrado para o seu lado. Alguns são tão complicados que ficam entre a linha tênue de herói e anti-herói. Wolverine é um desses casos. O mais popular dos X-Mens - e de toda a Marvel - é também um dos que sempre está com seu humor à deriva, como se funcionasse como um Hulk. Porém, a pressão sobre ele é um tanto maior, pois é nele que se concentra grande parte da responsabilidade no universo mutante, devido sua força, sua imortalidade e o instinto animal que volte e meia atinge seus objetivos. O longa Wolverine - Imortal (2013) se aprofunda em seus dilemas, com um personagem vagando sem destino, vivendo os lutos que se acumulam em sua dolorosa vida.

A trama se passa após os eventos de X-Men 3: O Confronto Final (2006), da qual, Logan (Hugh Jackman no auge de sua forma física - mais uma vez) precisou matar seu grande amor Jean Grey (Famke Janssen) para salvar a humanidade depois que os poderes da Fênix à sucumbiu. Deprimido, ele é encontrado em um bar pela jovem Yukio (Rila Fukushima, ótima no papel), que fora enviada por seu pai adotivo, Yashida (Hal Yamanouchi), salvo por Logan em Nagasaki, no Japão, no momento em que a bomba nuclear dizimou o lugar. No leito de morte, Yashima deseja reencontrar Logan para lhe oferecer o fim de seus tormentos como agradecimento: trocar seu fator de cura em troca da mortalidade, o que faria Logan morrer como uma pessoa qualquer. Claro que isso é algo mais do que uma moeda de troca qualquer e antes de qualquer resposta, Logan acaba infectado por Víbora (Svetlana Khodchenkova), uma mutante bióloga, fazendo-o ficar vulnerável. No meio disso, ele precisa proteger Mariko (Tao Okamoto), neta de Yashida, que herdeira das conquistas do avô, é alvo de seu pai, Shingen (Hiroyuki Sanada) e da Yakuza, a poderosa máfia japonesa.

Essa intricada trama, acaba tendo como resultado um filme introspectivo, sem deixar de ser um blockbuster com grandes cenas de ação (a luta em cima do trem bala é alucinante) e bons efeitos especiais - mesmo que contidos. Destaque para a boa trilha sonora de Marco Beltrami que garante uma emoção a mais. Os dilemas de Logan aos poucos vão dando espaço ao seu lado heroico, altruísta que mesmo com uma mala sem alça que é Mariko, acaba despertando nele um motivo para viver e ser novamente imortal. Mas isso é mais consequência do luto. No cinema, até agora foram dois amores perdidos: Kayla Silverfox (Lynn Collins) e Jean (que apareceu mais do que o necessário neste). Wolverine por mais que sofra a dor da perda, acaba dando chance ao amor como um motivo de continuar sua vida. Não a sua importância com a humanidade, mas sim o sentimento que lhe preenche. Se isso o faz um herói, é uma consequência de situações e do contexto, entretanto, ele como imortal, tem como aprendizado se descobrir e buscar uma forma de equilibrar seus sentimentos.

Wolverine - Imortal é uma obra que veio para apagar de vez as fracas lembranças do filme de 2009, X-Men Origens: Wolverine, que mal é tocado durante o filme. Além disso, ele também prepara terreno para o mega evento que a FOX e Marvel prometem para 2014: X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, o longa que promete unir as duas gerações de heróis vistos na primeira trilogia (2000, 2003 e 2009) e no recente X-Men: Primeira Classe (2011), como a cena perdida (e de arrepiar) entre os créditos finais mostra. Essa grande franquia tem lá seus deslizes, mas o carisma de Jackman aliado ao forte e desafiador personagem que é Wolverine, fazem seus filmes sempre garantia de diversão com alguma questão para ser aprofundada. Se X-Men é uma das criações que mais conseguem contextualizar os dramas de personagens com o contexto atual, Wolverine é o anti-herói necessário para fazer a série ainda mais interessante. E que venham mais produções buscando cada vez mais ampliar esse mundo, afinal de contas, o melhor deles, é imortal - o que não falta história para contar.

julho 23, 2013

Crítica: 'O Homem de Aço' traz um novo (e bom) rumo para o herói

Uma bela repaginada do herói desbotado


Na história do cinema, o Super Homem tem uma vida um tanto peculiar. Seu sucesso dos quadrinhos foi logo repetido nas telas com o ótimo filme de 1978, Superman - O Filme, que já previa o alto investimento atual com nomes de peso no elenco como Marlon Brando e Gene Hackman (além de apresentar Christopher Reeve, que ficou marcado no papel) e efeitos especiais muito bons para época. Após uma continuação bem sucedida em 1980, outras três sequências foram produzidas, uma em 1983, outra em 1987 (que finalizou um ciclo) e um retorno mal sucedido, em vários sentidos, em 2006. Em uma nova abordagem partindo do começo da história, o longa se aproveita de um contexto favorável para o resgate do herói que, apesar de ter um dos filmes mais idolatrados na cultura, há tempos sofre para ganhar destaque na dura concorrência entre Homem Aranha, Homem de Ferro, Hulk, X-Mens e, seu amigo, Batman. Eis que, chega aos cinema O Homem de Aço (2013).

O longa dirigido por Zack Snyder apresenta um novo reinício com grandes pretensões de gerar sequências e assim realizar o sonho da Warner Bros que precisa correr atrás do tempo perdido, ainda mais depois que a concorrente Marvel ganhou vida própria na industria cinematográfica e tem feito muito dinheiro com os heróis que sobraram em seu casting, conquistando o ápice no ano passado com o mega lançamento de Os Vingadores. A Warner que é dona dos heróis da DC Comics - casa dos personagens da Liga da Justiça - precisa inserir cada integrante em longas e assim lançar o filme do grupo reunido, como tem sido seus planos. Sua dificuldade vem do fato de que quando a Marvel Studios mostrou serviço, a Warner estava em meio a uma lucrativa franquia de Batman, dirigido por Christopher Nolan, e o receio de retomar a história de Super Homem, após o fiasco do longa de 2006. No meio desse caminho, ainda veio o fracasso de outros personagens da mesma empresa, como o filme do Lanterna Verde (2011) e a série de TV da Mulher Maravilha - cancelada pela NBC apenas com o episódio piloto gravado. Porém, com o tempo passando e empoeirando os fracassos e sucessos, foi confirmada a participação do Batman em Homem de Aço 2.

A notícia vem apenas para comprovar o que era esperado após um massante trabalho de marketing - nunca vi tanto trailer de um filme em diferentes sessões. O Homem de Aço acabou sendo um sucesso de bilheteria, sem chegar a ser um Cavaleiro das Trevas e muito menos um Homem de Ferro, mas apagou a má impressão que se tinha do herói. Mas não foi apenas o marketing que o salvou. A reformulação foi bem intensa em diversos âmbitos. Não adianta apenas escurecê-la, a tal cueca por fora da roupa finalmente já não existe mais - característica que denotava ingenuidade das diferentes épocas - e o filme percorreu um caminho mais sério, de visual austero e focado na ação. Snyder que tem experiência com longas de ação como 300 (2006), Sucker Punch - Mundo Surreal (2011) e a ótima adaptação do dramático e complexo quadrinho também da DC Comics, Watchmen (2009), conseguiu equilibrar seus exageros dando alguma profundidade no herói. O resultado é uma releitura rica dos dois primeiros filmes, seja em um roteiro melhor trabalhado ou no visual que tem um orçamento e tecnologias infinitamente superiores.

Seus atos remetem diretamente ao que foi visto nos filmes de 78 e 80 (apenas deixando de fora o grande vilão Lex Lurthor), com pequenas mudanças na construção do roteiro - são inseridos flashbacks para mostrar o crescimento de Clark Kent na família de humanos, fato que enriqueceu a psicologia em torno da evolução moral do personagem, tanto no seu aprendizado quanto na forma de pôr em ação. Tais semelhanças e mudanças foram significativas para fazer de O Homem de Aço um filme fácil, divertido, mas ao mesmo tempo que desafie o espectador, revertendo a banalidade de blockbusters que, de praxe, subestimam a capacidade do público. Outra questão foi na estética do filme, da qual, Znyder não caiu na armadilha que poderia surgir se seguisse a escuridão da saga de Nolan nos filmes do Batman. Então apresentou uma obra, cheia de vida e efeitos visuais de primeira. A ação desenfreada - não basta um personagem ser arremessado para o espaço, ele precisa encontrar um satélite no meio do caminho - ganha um bom equilíbrio com os flashbacks com planos contra a luz e câmera na mão, tremida, à la o cultuado A Árvore da Vida (2011) de Terrence Malick.

As atuações também estão condensadas nesse roteiro equilibrado dando chance a atores novatos como Henry Cavill e Amy Adams conseguirem manter o nível dos veteranos que tem nomes expressivos como Russell Crowe, Kevin Costner e Diane Lane. Foi também revelado para o grande público, mesmo já sendo indicado ao Oscar, o bom Michael Shannon, que ultimamente rouba a cena na série Boardwalk Empire - no longa ele é o vilão Zod. Contudo, nem tudo se saiu tão bem. O roteiro tem algumas passagens questionáveis como a morte do pai "adotivo" de Clark, que acaba perdendo a vida para salvar um cachorro; o excesso de Crowe querendo explicar a mesma coisa dezenas de vezes; poucas cenas de humor; e a prisão dos vilões que, banidos, acabam com a situação revertida após a explosão de Krypton, e uma nova chance surge transformando o castigo em uma salvação. A longa duração também deixa à desejar já que se trata de um filme "pipoca".

Entretanto, O Homem de Aço ainda funciona como bom entretenimento, que busca nas suas referências dos clássicos e no melhor da indústria cinematográfica em questões técnicas, para assim construir uma obra sólida e levantar a cabeça do herói que perdia o brilho e corria o risco de cair de divisão. O discurso de proteger o american way of life, deu lugar para um tema mais relevante como o bullying e uma mensagem mais universal como a compaixão pelo ser humano, mesmo este sendo tão variável nas questões morais. Soma-se a isso questões psicanalíticas (busca pela identidade em meio aos conflitos familiares e a perda do pai), filosóficas (vida fora da terra) e religiosas (o herói que vai se confessar na igreja). Esse retrato mais complexo do herói o faz sobressair, por exemplo, em qualquer outro filme da Marvel Studios, que foca na diversão, sem trazer algo a mais em sua justificativa de existir. Nos quadrinhos, geralmente, essas histórias vão à fundo disfarçadas de fantasia para tocar em temas espinhosos e nessa transposição para o cinema não deviam deixar essa essência ser perdida. Afinal, Superman é praticamente uma representação cristã para a humanidade que busca nos céus uma salvação e, nessa sociedade tão conturbada, esse tipo de heroísmo sempre tem espaço, pois não faltam os vilões.

julho 18, 2013

Crítica: 'Antes da Meia-Noite' finaliza trilogia com bom humor e reflexões

Filme é um dos melhores do ano até então


Em 1995 o diretor Richard Linklater ganhou os holofotes com o romance Antes do Amanhecer (Before Sunrise), estrelado por um jovem Ethan Hawke e uma charmosa atriz francesa Julie Delpy. A trama era simples, consistindo em um casal, Jesse e Céline, que se conhece em um trem que tinha como destino Viena e, quando chegam, resolvem passar o tempo, andando, conversando, filosofando e flertando, antes do dia clarear e depois cada um seguiria seu próprio caminho. A ideia que partiu de um fato real que aconteceu com o diretor e ele nunca mais viu a garota após essa noite especial. Perto do lançamento do longa, ele tinha esperanças que ela se identificasse com a história e aparecesse no lançamento, porém, descobrira posteriormente sua morte antes mesmo do filme ser lançado. Esse foi o mote da continuação que se passa em 2004, Antes do Por do Sol (Before Sunset), da qual, Jesse lança um livro sobre a noite, atraindo a atenção de Céline. Agora mais nove anos se passam, e mais um fragmento da vida do casal é mostrada em Antes da Meia-Noite (Before Midnight, 2013).

Essa peculiar trilogia, ganhou fãs adeptos que logo se identificaram com os encontros e desencontros do casal. Se no primeiro filme, a história ainda não sabia para onde ir, sem nenhuma pretensão de ser algo além do que um experimento sobre o acaso e o amor, deixando no final o público imaginar o que aconteceria entre os dois, sua continuação foi longe em desfazer o tom de conto de fadas e incluir a realidade na vida daqueles personagens. Seu bate-papo por Paris vai ganhando ares mais subjetivos, com tons politizados, decepções, arrependimentos, nostalgia e uma tensão sexual bem perceptível. Jesse que viveu o "sonho americano" se afundou em um casamento sem amor e cumplicidade, parecia ter lançado o livro sobre sua experiência para atrair aquela pessoa que por um período mudou sua vida. Ela teve seus namorados, estudou nos Estados Unidos - mas não suporta o país - trabalhou em prol de melhorar o mundo, mas dá para sentir um vazio dramático naquela tranquila vida parisiense.

Antes da Meia-Noite, chega para, finalmente, mostrar o casal junto. Chega de flertes, de ensaios sobre a vida separados e como seriam eles juntos. Ali está o estado bruto do que é o casal apaixonado que se conheceu há 18 anos e agora tem filhos para dividir a atenção. O longa se passa com o casal de férias na Grécia, aproveitando os últimos dias de folga do filho de Jesse, fruto do ex-casamento com uma "insuportável" mulher. Seus 40 anos começam a pesar e ele sente que anda distante do filho, já que agora mora em Paris com Céline. De uma primeira conversa no carro, logo é jogada a questão, junto com outras reflexões sobre a qualidade do trabalho deles como pais. Com mais cenas contextualizando o momento, o diretor sai um pouco do foco do casal e mostra outros personagens (também casais) e assim se aprofundar em diferentes olhares sobre o que é o amor e a vida.

Ali estão reunidos no almoço: um jovem casal sonhador (que bem lembra a inteligência e sagacidade de Jesse e Céline quando se conheceram), um casal um pouco mais velho que eles e um idoso e uma senhora, ambos viúvos. Cada fala que transcende o humor do ridículo em estereotipar homens que tem como fato mais importante da existência seus próprios pênis, assim como o que é importante para um relacionamento durar. Após esse ato, parte-se finalmente para as andanças do casal pela rústica Grécia, esperando que mais uma vez o local acenda neles novos sentimentos que precisam serem consumidos. Como bem citado, o humor característico deles, vai ganhando aos poucos contornos um pouco mais ácidos, ríspidos que logo chegam ao auge no Hotel, em que praticamente duelam como numa tragédia grega.

Nessas conversas tumultuados, ofensivas, todo aquele ar romântico e sublime dos filmes anteriores vai dando espaço a uma verdadeira reflexão sobre o olhar feminista sobre a injustiça no equilíbrio da família e os deveres com os filhos. Perdendo o controle, fatos de casos antigos e supostas traições criam um clima ainda mais tóxico. Claro, que Linklater mostra isso com bons diálogos mesclando a ironia de Céline e a paciência de Jesse, para assim o ato render boas frases, jogar questões metafóricas e sempre buscar acrescentar no relacionamento dos dois. Fica muito subjetivo também, o olhar psicanalítico que o diretor dá sobre o casamento, mais parecido com um reflexo da infância do homem que busca na mulher sua representação de mãe - o fetiche dos seios permeia pela tela por alguns poucos instantes. Seria esse o causador dos maiores problemas do casamento? Essa dificuldade dos homens se estabelecerem na família, já que se acham no lugar de também serem filhos e não pais?

O ato final vai afundo sem, obviamente, tentar responder essas questões complexas e provavelmente sem solução. Apenas dá uma dica bem vinda que pode ajudar. Com tantas mudanças que ocorrem ao decorrer do tempo, as decepções, os momentos felizes, o cansaço da rotina e outras, o importante é entender o tempo como uma percepção, como Jesse mesmo indaga. Nesse tempo físico, da qual, as lembranças acabam sendo deixadas de lado, nada custa uma boa "viagem no tempo" para relembrar o que motivou esse entrelaço de casais que se conhecem de maneira tão lírica, poética e poderiam sempre levar isso como motivação para construírem uma relação duradoura. Não a relação de novela, mas aquela que tem como importante o companheirismo, o respeito, a cumplicidade. O filme retrata de forma brilhante esse casal tão comum, mas ao mesmo tempo tão único, e que o tempo só lhes fez bem.

julho 04, 2013

Crítica: 'Guerra Mundial Z' apresenta zumbis da geração 'fast food'

Uma boa mistura de gêneros que acaba caindo no lugar comum


"A Mãe Natureza é um Serial Killer". Essa é uma das frases que bem definem a alma de Guerra Mundial Z (EUA, 2013). No cinema Hollywoodiano é bem comum tramas mirabolantes sobre a sociedade com provações quase bíblicas que geram questões de moral e ética ao redor. Seja a trama com invasão alienígena, ataques terroristas, cataclismos, queda de meteoros e por aí vai. Tais eventos ganharam uma proporção astronômica com a onda apocalíptica que inundou a cultura depois de tantos conflitos sociais, crise econômica, epidemias e o medo generalizado do fim do mundo que não aconteceu (ainda). Com a recente redescoberta da ameaça zumbi com os quadrinhos que deram origem a famosa série The Walking Dead, chegou a hora deles se tornarem uma ameaça global, só que dessa vez com uma bateria mais potente. Uma pena porém, que a nova empreitada passe longe do que é a premissa do livro de Max Brooks, da qual, Guerra Mundial Z é baseada.

O longa é dirigido por Marc Forster, que tem em seu currículo, desde o filme voltado para a ação como 007 - Quantum of Salace (2008) até filmes mais dramáticos como Em Busca da Terra do Nunca (2004) e o sensacional A Última Ceia (2001). Guerra Mundial Z, apesar da premissa com ação desenfreada como propunha o marketing, acaba mostrando algo mais emocional do que o esperado. O filme narra a história sob a ótica de uma família e sua sobrevivência após o surgimento de uma misteriosa doença que desencadeia uma epidemia mundial. As pessoas infectadas, dentro de dez segundos se transformam em seres violentos e que ganham uma força e agilidade magistral atacando quem estiver no caminho. Para conter o avanço, o governo americano recruta um ex-investigador da ONU, Gerry Lane (Brad Pitt), afim de investigar a origem da doença ou alguma forma de enfrentá-la. Ele consegue escapar de um eminente contágio em massa quando estava com a esposa Karen (Mireille Enos, ótima atriz de The Killing) e suas duas filhas. Gerry então dá uma verdadeira volta ao mundo, Coréia do Sul, Israel e País de Gales atrás da respostas.

Mesmo contendo alguma ação, é possível perceber no filme várias tentativas de unir gêneros e até mesmo misturar um pouco o que já foi visto. Guerra Mundial Z tem toques de suspense e drama, o que não o faz, essencialmente, um filme de zumbis como Extermínio (2002) ou A Epidemia (2010). O modelo escolhido talvez se deva a tentativa de fazê-lo um filme da lucrativa temporada de férias, que como é praxe precisa abranger seu potencial com o grande público. Daí também vem a explicação da ausência de violência - uma cena de mutilação é apenas insinuada, assim como as mordidas. Por outro lado, é possível se divertir em larga escala com cenas aéreas que bem lembram filmes de desastres climáticos como O Dia Depois de Amanhã (2004) - que no lugar de água, é um tsunami de zumbis -, o terceiro ato lembra Resident Evil (2002) e, também, dadas as circunstâncias, o filme tem nos primeiros instantes ares bem subjetivos de um filme de guerra mais tímido, como Guerra dos Mundos (2005), além de seguir a regra do clichê da família americana desprotegida que é comum na indústria.

São quase duas horas com cenas que equilibram o drama sendo pautado por momentos de pura aventura e que segura a boa tensão do início. Mesmo tentando se aprofundar na situação mundial diante uma crise extrema - é impossível não lembrar do bom Contágio (2011) de Steven Soderbergh, quando o próprio roteiro traça paralelos de doenças como a gripe aviária ou a H1N1. Por outro lado, a característica de superprodução o deixa sem aprofundamento mais humano nas questões tratadas. Ali está o herói imune ao medo, que se sacrifica e salva vida como uma espécie de Jesus - sem qualquer traço de desequilíbrio. O mesmo herói que, simbolicamente é um oficial da ONU, o que em tempos de governos desacreditados - é citado que o presidente americano morreu -, deixa claro que aquela visão do homem mais poderoso do mundo sempre representado como a figura patriota ou que pelo menos tinha compaixão pela situação, nem sequer existe mais, passando a esperança para as mãos de uma organização (ainda) com alguma credibilidade.

Falar dos aspectos técnicos é redundante em termos de Hollywood. Mesmo ficando cada vez mais repetitivo - a moda agora são as trombetas que fizeram sucesso na trilha sonora de A Origem (2010) - o filme tem bons efeitos especiais, desde cenas no meio de grandes cidades, até uma queda de avião diante um ataque dos zumbis, assim como boa fotografia (muitas sombras quando necessário para suspense) e etc. Essa grandiloquência, porém, ainda deixa à desejar quando é alternada em contextos menores. Por exemplo, quando acontecem ataques de massa no meio de ruas, os zumbis praticamente voam e até sobem em cima um dos outros para pularem muros, porém, em ambientes fechados, como na cena do laboratório da OMS, eles correm como qualquer ator travestido de zumbi correria (a explicação talvez esteja nas refilmagens que mudaram o terceiro ato). As atuações são como qualquer uma de filme blockbuster, assim como o estereótipo de hierarquias estabelecidas. Por outro lado, é muito bom ver os grandes estúdios procurando locações diferentes do quintal de casa ou da Europa. As cenas em Israel são um frescor para os olhos, e não parecem vindas de visões equivocadas como é constante aos olhos do Ocidente. Nada como uma bilheteria internacional para ditar o que é o certo a fazer.

Apesar de se encontrar nesse gênero de terror com zumbis, Guerra Mundial Z também denota o que são as pessoas nos dias de hoje. Se zumbis são uma grande metáfora para o consumismo desenfreado e a alienação, agora, mais rápidos, são também o reflexo de uma sociedade, da qual, a rapidez do fluxo de informação, do trabalho, da busca pelo prazer e dessa banalização do tempo em que tudo precisa ser rápido como uma rede de fast food. Pode se inserir também a questão ambiental como o lixo que não para de se acumular. É como se a industria cinematográfica precisasse se manter ágil para continuar surpreender, fazendo uma descaracterização aqui e outra ali. O grande problema, é que para ela vir com um tsunami de corpos cadavéricos na direção do público e ter uma plena satisfação dele ou ao menos mostrar algo realmente marcante, é necessário apresentar uma história um pouco mais concisa do que apenas um visual diferente (como o romance que deu origem a história, parece ir mais à fundo). Uma pena que um tema tão rico em variantes termine como a frase que finaliza ao descrever a ideia da Mãe Natureza como uma serial killer: "ela adora disfarçar suas fraquezas como forças". Hollywood maquia sua falta de ousadia em filmes de interesse comercial com seus visuais extravagantes, mas não parece entender que isso só deixa ainda mais clara sua incapacidade de lidar com o público cada vez mais exigente e seu compromisso com a arte que lhe rende lucros orbitantes.


junho 15, 2013

Crítica: a emoção vence a lógica em 'Star Trek - Além da Escuridão'

No final cristão, a emoção cheia de altruísmo leva a melhor


O seriado Jornada nas Estrelas (Star Trek), sempre foi centro de debates políticos e filosóficos, além de funcionar como um bom produto de entretenimento que conquistou milhões de fãs pelo mundo. Trazendo como centro ideológico está a nave Enterprise, símbolo da Federação Unida dos Planetas, que ao explorar o universo afora, tenta ajudar e moderar questões internas e também externas - utilizando boa artilharia militar. Como se passa em um futuro distante, fantasioso (e um tanto utópico), o seriado foi alvo de reflexões sobre analogias políticas do nosso planeta, sempre refletido em mundos inventados, o que serviu como uma liberdade para os roteiristas tecerem suas críticas e passarem sua mensagem. No entanto, na sobrevida ganha no cinema, após o longa de 2009, que contou a ascensão dos jovens Kirk e Spock como líderes, agora Além da Escuridão (2013) mostra melhor a diferença entre os dois e a busca de um equilíbrio.

O filme tem início com uma missão, da qual, a nave é enviada à um planeta primitivo, prestes a ser extinto graças a um vulcão em erupção. Spock (Zachary Quinto) entra no vulcão para deixar um dispositivo que irá congelar a lava, porém, seu plano sai errado e ele fica preso dentro dele. Eis que, James T. Kirk (Chris Pine), no comando, não só ordena que a nave saia do seu esconderijo no fundo do mar (para evitar que os nativos saibam da missão, interferindo nas suas crenças sobre o universo) como também eles acabam ajudando pessoalmente Spock. Tal atitude em oposição às normas, gera desdobramentos para Kirk que passa a sofrer represarias da Frota Estelar, sendo afastado do comando da nave. Depois de um ataque terrorista na Terra, Kirk acaba sendo remanejado ao seu posto para lutar contra John Harrison (Benedict Cumberbatch), o famoso vilão da série, também chamado de Khan, renegado da Frota e autor dos ataques (e que mais a frente explica seus motivos).

Apesar do histórico político da série, essa nova abordagem da franquia dirigida por J.J. Abrams - o próximo diretor de um novo ciclo da saga Star Wars - tem como maior intenção focar no entretenimento. A parte técnica que muito bem combina com a temporada de superproduções, não economiza em efeitos visuais - grande parte do filme é no espaço, o que em 3D garante uma emoção extra - e em outros aspectos como maquiagem, fotografia, trilha sonora, e por aí vai. O grande vilão não é lá tão aterrorizador - grande parte do filme eles lutam juntos contra um mal maior - e o foco do filme vai para a relação dos tripulantes da nave. E o entretenimento se vê envolto a uma mensagem um tanto melodramática e parcial.

Cinema é emoção. Spock é um ser em grande parte lógico. Sua frieza ao delatar o companheiro Kirk não só cria um atrito com ele, como também abala sua relação com seu interesse amoroso Nyota Uhura (Zoe Saldana). Na defesa de seu filme, o diretor, não polpa em bater na tecla que o maior problema do universo é essa frieza "absurda" de Spock. Tal sentimento - no primeiro filme, mostra sua raça vulcana sendo quase toda dizimada - sempre é confundido como um mal à sociedade, um mal à Enterprise - na visão de Kirk, claro. Depois de criar situações e mais situações e assim banalizar a mensagem do herói altruísta que é Kirk contra o companheiro, o roteiro vai fundo e sacrifica-o para salvar a nave. Se no sistema da Enterprise as regras precisam ser quebradas o tempo todo, Spock precisa da mesma forma ser confrontado e aprender uma lição, um tanto cristã - sim, cristã.

O problema de Além da Escuridão é este. O entretenimento por entretenimento não precisa mais de um roteiro cheio de lição de moral e quase ultrapassa a linha tênue piegas. Claro que a emoção é importante, mas seu discurso em sabotar a lógica, a razão, é um tanto extremista e a conversão de Spock, um ser que tem seus motivos de agir e beneficamente tem seus princípios, soa um tanto exagerada. A ressurreição cristã no final é o claro exemplo de que Hollywood bebe de uma fonte, da qual, o altruísmo é uma corrente sempre benéfica e sem lados negativos, que reflete na utopia socialista que Star Trek é acusada de ser. O que fica nas entrelinhas da hipocrisia da mensagem é que Kirk só reviveu depois do sangue do inimigo abatido salvar a sua vida. E por mais santo que Kirk seja - apesar de sempre por tudo à perder, arriscando a missão, sendo categoricamente fundamentalista - Spock sim é o ponto forte da história, sendo aberto ao aprendizado e passa a se equilibrar de forma racional a emoção e a lógica nas missões - parte dele salvar a comunidade do vilão. Uma pena que depois de alusões políticas pra lá de influentes, Star Trek ainda precisa cair na velha mensagem de heróis inocentes - um tanto atrasada para os dias de hoje.

Crítica: 'Depois da Terra' se aprofunda na mensagem, mas não convence

Longa morre na praia, mesmo com boa premissa


Medo. A palavra que provém do termo latim metus, tem por definição ser uma "perturbação angustiosa perante um risco ou uma ameaça real ou imaginária". Poderia muito bem ser tema de um filme de terror ou, basicamente, um suspense. Porém, nas mãos do diretor M. Night Shyamalan, ele se transformou em um filme de ficção científica com doses de drama familiar e um pouco de suspense. Com ideia original de Will Smith, o longa Depois da Terra (EUA, 2013) além de mostrar um futuro primitivo no planeta, faz uma reflexão religiosa sobre o sentimento de medo - com preceitos da controversa cientologia - e parte em rumo de um drama sobre crescimento, paternidade e traumas.

O filme conta uma história mil anos depois da Terra passar por mudanças radicais, se tornar um lugar hostil e forçar os humanos a se abrigarem no planeta Nova Prime. Após retornar de uma missão, o geral Cypher Raige (Will Smith) retorna à família e encontra seu jovem filho (Jaden Smith) se esforçando para ser um soldado como o pai, mas sem sucesso por o considerarem instável emocionalmente quando pressionado. Quando em uma viagem pelo espaço dá errado, fazendo a nave - em que os dois estão - cair no lendário Planeta Terra, se dá início à uma corrida contra o tempo do jovem encontrar um sinalizador perdido em outra parte da despedaçada nave, onde apenas ele e o pai (gravemente ferido) sobreviveram.

Essa jornada é contada intercalando flashbacks que mostram que o jovem passou, quando criança, por o trauma de perder a irmã de forma violenta, depois dela salvá-lo. M. Night Shyamalan conduz abusando de diversas características que o deram fama, mas também desprezo. Tem a intenção de fragmentar um filme de gênero e colocar uma alma para assim dar sentido na mensagem final, já foi explorada com sucesso no ótimo Sinais (2001);  fábula de "monstros à solta" é bem o que ele tratou em A Dama na Água (2006), A Vila (2004), Fim dos Tempos (2008) ou no fantasmagórico O Sexto Sentido (1999). A reflexão filosófica sobre responsabilidades e superação foi visto no infantil O Último Mestre do Ar (2010) e em boa parte dos citados, assim como todos eles dão ênfase em dramas familiares. Ou seja, o diretor tem como característica, incrementar nas narrativas, o que ele considera uma alma, uma sensibilidade adequada para complementar a ideia.

Na aparente falta de perspectivas depois de ser duramente criticado por essas obras, que não são excelentes, mas nem de longe são tão ruins como alguns extremistas dizem, o diretor encontrou numa ideia de Will Smith (e vice-versa) uma forma de explorar na ficção científica os conflitos pessoais e filosóficos de personagens que buscam uma redenção. Seja o filho que deseja se conectar com o ausente pai e superar o obstáculo oriundo de um trauma do passado e nesse pai que pela primeira vez ensina seu filho a viver os tormentos da vida pós apocalíptica (representada pela entrada na adolescência). Para passar essa mensagem e debater sobre esses dilemas e problemas, o roteiro é razoável, porém na contextualização, tanto visualmente, quanto na maneira que ele evolui a história, Depois da Terra é um filme ruim do diretor.

A ótima intenção da mensagem sobre o "medo" se vê perdida em situações constrangedoras de momentos entre "pai e filho", pulos que se transformam facilmente em vôos, aves gigantes amigas, as atuações ruins dos atores - Will Smith, símbolo de carisma, mas aqui está cinzento, sem graça - e seu filho tem um papel muito pesado nas costas, mas que com muito esforço até segura o filme do início ao fim, sem ser um desastre. Outro ponto negativo, é a direção de Shyamalan. Lá estão novamente enquadramentos feios, pobres e que no lugar de acrescentarem na história, apenas confundem os olhares. Criticam sobre a mensagem ter conexão com a religião de Smith, ou que o ator é tão egocêntrico e arrogante que deu um filme de presente para o filho. Bobagem. Em outra leitura, pode sim dizer que o ator queira inserir o filho na indústria cinematográfica, mas depois de uma repercussão negativa - o diretor já está acostumado - Jaden pode levar como maior lição que a hostilidade dentro de Hollywood e todos os veículos midiáticos que o cercam, são apenas contraste da fome pela carniça alheia, e é muito bom que a cientologia ensine sobre coragem e desmistifique o medo, assim, quem sabe, ele pode um dia ser como o pai, que tanto já fez pela indústria, agora paga o preço.

junho 08, 2013

Crítica: 'O Grande Gatsby' remonta, com exuberância, a desilusão americana

O carnaval trágico de Baz Luhrmann é contagiante


O diretor australiano Baz Luhrmann é, sem dúvidas, daqueles que pode se considerar um realizador autoral. Suas características criativas próprias refletem em qualquer longa assinado por ele. Se Hollywood cada vez mais carece dessa virtude, ele é um desses alívios no meio de tanta produção igual. Seu maior trunfo até então, apesar de dividir opiniões com o bem experimental Romeu + Julieta (1996), é o marcante musical Moulin Rouge - Amor em Vermelho (2001) que tem fãs espalhados por todo o mundo e deu novo gás ao estilo do gênero dramático. Com poucos filmes na carreira, o diretor conquista o sucesso de público com a mais nova versão do clássico da literatura americana de F. Scott Fizgerald, O Grande Gatsby (Austrália e EUA, 2013), sem, no entanto, conseguir aprovação da crítica.

Mas Luhrmann não se acanha. Seus filmes seguem o estilo quase igual de uma produção para outra. São sempre obras grandiosas, com uma parte técnica marcante, o visual exuberante, fotografia, figurinos, edição, efeitos visuais, assim como a trilha sonora. Como na sua versão do clássico de Shakespeare e também no musical da famosa casa noturna de Paris, O Grande Gatsby é um filme com pretensões artísticas contemporâneas, bebendo desde a fonte do jazz mais clássico, até a grandiloquência da indústria pop atual. Criticam que sua fórmula extravagante acabe engolindo a narrativa, o roteiro. Falam que os efeitos do filme, assim como a atmosfera exagerada para a época, é algo de mau gosto, cafona. Mas, então, não é divertido?

Sabe-se que o livro é muito famoso nos Estados Unidos, da qual, é leitura obrigatória no ginásio. Já foram feitas outras três transposições para o cinema, e nenhuma se deu bem - criticaram principalmente o ritmo das narrativas. Então, Luhrmann vai ao seu extremo de ousadia - já errou com o interminável Austrália (2008) - e entrega um filme moderno, com uma narrativa que se mistura literalmente com o visual extraordinário do longa sem perder o fio da meada. Funciona como um videoclipe de luxo, poderoso, bem condicionado e ritmado.

A história se passa nos dourados e bagunçados anos 1920, e tem como protagonista Nick Carraway (Tobey Maguire) que depois de avistá-lo, passa a ter uma certa obsessão por seu vizinho, o misterioso Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio). Eis que Gatsby convida o jovem para uma de suas famosas festas. E o que tem de famosas, tem de extravagantes. A mansão do milionário se transforma praticamente em um Moulin Rouge de cores e ritmos. Sem distinção de classes sociais. Depois disso, os dois passam a ser amigos, mas Gatsby continua cheio de mistérios. Então, Nick descobre que o novo amigo é uma antiga paixão de sua prima Daisy Buchanan (Carey Mulligan), uma mulher que é um verdadeiro sonho em carne e osso, e desperta em qualquer homem uma atração natural. Nick deseja fazê-los voltar com o relacionamento, apesar de Daisy ser casada com o também rico Tom Buchanan (Joel Edgerton).

A história se desenrola como uma novela. Com grandes momentos dramáticos - as atuações são grandiosas, desde Tobey Maguire, dividindo muito bem as atenções com o grande astro Leonardo DiCaprio (pra mim um dos melhores atores de sua geração) até o casal Carey Mulligan com Joel Edgerton - este num papel de vilão, mas que tem uma profundidade nada comum para cair em clichês. A visão do contexto geral, também é um grande trunfo. O diretor consegue inserir muito bem o espectador dentro daquela América proibida, grandiosa e rica, não se importando para a lei seca, e vivendo aquela ilusão dourada que parecia nunca terminar. O sonho é sempre refletido no olhar de admiração de Nick por Gatsby, aquele homem que cresceu de forma genuína pelo amor, mas agora sobrevive de fraudes - um de seus segredos bem guardados. O castelo na verdade é de cartas de baralho no lugar de concreto, pronto pra desabar.

Juntando a ascensão dos poderosos e a marginalidade dos mais pobres - esses servem como amantes, válvulas de escape que nunca serão assumidos, nem depois de mortos - a história caminha ainda no vale sombrio do que é o ser humano que se corrompe quando ocorre o desequilíbrio na dosagem de amor. Gatsby apesar de ter tudo, também vive olhando na vitrine o que é o seu maior desejo: Daisy. E assim perde a cabeça. Esta é apenas um sonho, uma representação deles sobre a mulher perfeita, de três homens que lhe cercam sem culpa alguma. Lurhmann trata disso tudo como uma grande festa, sem espaço pra melancolia, mas que como todos sabem, começa a ruir não só com a crise econômica de 1929, mas também com a decadência moral e o abuso por parte dos abutres que retalham as vítimas desse medo, não o que tem o sentimento, mas o que sofreu por causa das ações do medroso. Energético, divertido, inspirador. Essa leitura de O Grande Gatsby é um emocionante sopro de vida e ousadia no cinema.