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fevereiro 17, 2013

Crítica: 'Meu Namorado é um Zumbi' desconstrói mito para divertir

Zumbi que está mais pra Romeu do que qualquer outra coisa...


Depois de uma febre vampiresca que tomou conta da cultura pop, chegou a hora dos zumbis dominarem de vez os cinemas. Com o sucesso na última década de grandes filmes de suspense como Extermínio (28 Days Later, 2003) de Danny Boyle, passando pelo terror em Madrugada dos Mortos (Dawn of the Dead, 2004) de Zack Snyder, até a franquia de ação vinda dos videogames Resident Evil, chegou a hora de um romance adolescente para completar a onda - isso sem deixar de mencionar o sucesso televisivo da série de TV oriunda dos quadrinhos, The Walking Dead. Em Meu Namorado é um Zumbi (Warm Bodies, 2013) o alvo é o público jovem que busca algo menos sério que a saga Crepúsculo e menos intelectualizada que a de Jogos Vorazes.

Óbvio que a temática é muito mais complicada de ser desenvolvida em relação aos vampiros, porém, essa aventura adolescente é um sopro de originalidade. Assim como o último sucesso que conseguiu dar uma cara diferente ao tema, Zumbilândia (Zombieland, 2009), Meu Namorado é um Zumbi se apóia na comédia para divertir e no romance para atrair o público feminino - cada vez mais difícil de atrair. Do mesmo jeito que Crepúsculo conseguiu dar numa sobrevida à temática, mesmo dividindo opiniões, chega-se agora próximo ao divisor de águas sobre história de zumbis, mesmo sendo aquele que funciona como uma sátira, porém sem deixar de lado questões mais tradicionais.

O filme conta a história do planeta em um futuro pós-apocalíptico, onde um vírus se alastrou transformando pessoas em zumbis. A origem da doença não é explicada, como de praxe em produções do estilo. O "jovem" zumbi R (Nicholas Hoult, cada vez mais em evidência) passa por uma crise existencial, como é possível ouvir  pelo seu subconsciente, transparente para o espectador em forma de off, e acaba criando laços de amizade com uma humana chamada Julie (Teresa Palmer, a cara da Kristen Stewart). Com a medida que vão ficando próximos, ele vai se apaixonando. Sendo assim, seus sinais vitais começam a dar sinais de vida, o que gera uma onda de "cura" em toda a comunidade zumbi. Tudo seriam flores se não fossem duas ameaças, os esqueléticos, que é a forma mais degenerada da doença (totalmente irreversível e violenta) e o general Grigio (John Malkovich), pai de Julie, que não está interessado na cura e quer a extinção imediata de todos os zumbis.

No primeiro momento que o amor dos dois começa a crescer, é dada uma cara Romeu e Julieta à trama. E o diretor Jonathan Levine, por trás do sucesso independente 50% (50/50, 2010), faz de forma isso bem clara. Uma das cenas mais perceptíveis, é quando o R (seria uma alusão à Romeu?) aparece em frente a casa de Julie, que está triste na sacada do prédio. Tal referência, é mais clara que qualquer devaneio shakespeariano que permeia toda franquia Crepúsculo e até mesmo mais decente que últimos filmes adolescentes românticos. Tal dose de romance é sempre quebrada com uma pitada de comédia, intercalando menções com a indústria cultural atual - Kim Kardashian é citada - até mais antigas, como Uma Linda Mulher e sua inesquecível música tema.

Em outras vertentes percebe-se a necessidade do longa buscar também requentar a metáfora do tema, da qual, é uma crítica em relação ao consumismo desenfreado. Nesse sentido, ele inclui também os paredões (no sentido também literal) que sempre separaram os humanos dos zumbis. Deixando de lado qualquer tentativa de entendimento e cortando vínculos que poderiam gerar uma aproximação. É como se uma ilha fosse formada, deixando humanos de diferentes níveis, separados - não muito diferente do pensamento individualista que permeia no contexto atual da sociedade. Os muros pessoais, oriundos do medo do desconhecido, e o temor que o diferente possa causar em uma sociedade estável. Não são os próprios norte-americanos que discutem a grande muralha em relação ao México?

Meu Namorado é um Zumbi é um bom filme, que garante uma diversão descompromissada e acima da média. Numa época em que a indústria mostrou que não se trata de uma crise criativa, mas sim um medo irracional dos grandes estúdios de investirem em histórias diferentes e originais, ele vem para provar que é possível sim mesclar uma boa e ousada ideia. E dessa forma, sai na frente de outras produções milionárias - de gosto duvidoso com a fórmula testada anteriormente - que fracassaram recentemente : João e Maria: Caçadores de Bruxas (Hansel and Gretel: Witch Hunters, 2013) - suando pelo sucesso internacional e Dezesseis Luas (Beautiful Creatures, 2013), que tem como slogan: "o novo Crepúsculo". É no mínimo tratar os espectadores como zumbis.

Trailer:




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