fevereiro 28, 2011

Oscar 2011: previsível e filme de superação vence contra a 'geração conectada'

Drama histórico O Discurso do Rei sai vitorioso contra A Rede Social e o nerd egoísta



Na previsão que preparei horas antes do Oscar 2011 já mostrava meu descontentamento com a premiação que vive criando injustiças em nome de interesses ou "fases". O Discurso do Rei ao levar o prêmio de melhor diretor pelo "desconhecido" Tom Hooper transparecia que a tática dar os dois principais prêmios  para obras diferente é algo estranho e até constrangedor, e que elegantemente não foi repetido aqui. Preferiram o conservadorismo. Enquanto isso A Rede Social saiu vencedor em três categorias: montagem, roteiro adaptado e trilha sonora. E isso não revela o quão grande o filme é. Ou seja, a saia justa fica por conta da obra ser boa, talvez superestimada um pouco, mas que faz uma crítica necessária e nos aproxima aos bastidores dessas grandes corporações criadas com o advento da Internet. Enquanto O Discurso do Rei (melhor filme, diretor, ator e roteiro original) veio com uma história batida de superação de problemas, que mesmo com uma história interessante e curiosa, é superestimada do mesmo jeito com seu jeito clássico de ser produzido. Ou seja, os dois estão praticamente no mesmo nível, não foram de grande sucesso com o público, apesar de A Rede Social ter conquistado a fama sozinho e não apoiado pelo Oscar, como está sendo este último, e os eleitores deviam sim terem equilibrado melhor a balança, já que David Fincher tem uma carreira mais consistente e fez finalmente seu melhor trabalho desde Clube da Luta. Se não gostaram muito do trabalho de David, preferiram quase consagrar os sonhos de Christopher Nolan.

Nolan, este, viu seu A Origem vencer em quatro categorias também, mas todas técnicas (fotografia, mixagem de som, edição de som e efeitos visuais). Foi esnobado nas indicações como melhor diretor e ator (Leonardo DiCaprio) e isso é estranho, afinal, é um filme inovador (e ainda perdeu como roteiro original!) - mas podia ser pior já que Bravura Indômita, que não ganhou nada de 10 indicações - e se fosse à julgar pelo conservadorismo - era pra ter saído na frente. No resto tudo foi previsível, a juventude de Anne Hathaway e James Franco foi bem vinda, mas pouco inovou à premiação que pareceu em alguns momentos ser chata e repetitiva. Nada memorável e a impressão que fica é que enquanto não aparecer um novo grande vencedor como Titanic ou O Senhor dos Anéis, a premiação vai seguir assim, tentando equilibrar premiados, causando injustiças ali e aqui e sempre buscando a redenção nos anos posteriores. Uma pena. Quem perde isso são eles mesmos que não buscam premiar filmes que realmente fazem sentido para a época e para a sociedade, acham que apenas as categorias de documentários servem para isso. Mas cada um tem a sua opinião e essa é a minha, de uma pessoa que está frustrado há muito tempo e pelo jeito vai continuar se frustrando.


Confira a lista dos indicados e dos vencedores (em negrito):


Melhor filme
Melhor Diretor
Melhor ator
Melhor atriz
Melhor ator coadjuvante
Melhor atriz coadjuvante
Melhor longa animado
Melhor direção de arte
Melhor documentário
  • Waste Land (Lixo Extraordinário)
  • Exit Through the Gift Shop
  • Trabalho Interno
  • Gasland
  • Restrepo
Melhor trilha sonora
Melhor roteiro original
Melhor roteiro adaptado 
Melhor Edição de Som
Melhor mixagem de Som
Melhores Efeitos Visuais
Melhor canção Original
Melhor Maquiagem
  • Achievement in makeup 
  • The Way Back 
  • O Lobisomem
Melhor Edição

Melhor Curta de animação
  • Day & Night
  • The Gruffalo A Magic Light Pictures
  • Let's Pollute A Geefwee Boedoe
  • The Lost Thing
  • Madagascar, carnet de voyage (Madagascar, a Journey Diary) 
Melhor fotografia
Melhor filme em lingua estrangeira
  • Biutiful
  • Fora-da-Lei
  • Dente Canino
  • Incendies
  • Em um Mundo Melhor
Melhor figurino

Melhor documentário em curta-metragem
  • Killing in the Name
  • Poster Girl
  • Strangers no More
  • Sun Come Up
  • The Warriors of Qiugang
Melhor curta-metragem
  • The Confession
  • The Crush
  • God of Love
  • Na Wewe
  • Wish 143

fevereiro 27, 2011

Oscar 2011: Previsões e críticas

Opiniões e o que se pode esperar do momento único do cinema


A noite mais importante para os cinéfilos e para o mundo do entretenimento finalmente chegou! E todos estão se perguntando, O Discurso do Rei pode mesmo tirar o Oscar do queridinho A Rede Social? Neste ano eu tive a oportunidade assistir aos dez indicados e alguns outros que se deram bem nas categorias técnicas, e meu sentimento é apenas um: medo de mais uma frustração. Os anos que se passaram a história sempre se repetiu. O eleitores da Academia escolhem seus favoritos com a intenção de entregar um prêmio de consolação, homenagem ou simplesmente contornar algum erro do passado. Não existe filme que se encaixe na fórmula de vencedor, pois a premiação tem sempre uma fase, suas preferências acerca de contextos históricos ou filmes que funcionaram como entretenimento, como o caso de O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei. Por isso não gosto de fazer apostas, pois sempre me confundo no que eu gosto e no qual deve vencer e me frustro com resultados injustos.

As ressalvas que faço sobre a noite de hoje são:

- A parte técnica não me interessa tanto, acho que todos filmes indicados merecem e qualquer um que ganhar está de bom tamanho - só não acho justo quando usam essa parte para baixar a bola de concorrentes fortes por serem blockbusters e prestigiar os menores. Isso pode ocorrer com O Discurso do Rei levando prêmios de Alice e A Origem.


- A categoria de atores está muito bem escolhida e os favoritos, Colin Firth e Natalie Portman merecem ganhar. Minha incerteza é sobre atriz e ator coadjuvante, da qual, não acho que o trabalho de Melissa Leo em O Vencedor seja tão bom quanto de Helena Bonham Carter ou da jovem Hailee Steinfeld de Bravura Indômita, ou  Christian Bale melhor que de Geoffrey Rush em O Discurso do Rei ou de John Hawkes por Inverno da Alma. O que favorece Bale são as transformações físicas.

- Christopher Nolan devia vencer em melhor roteiro original por A Origem e assim justificar porque ficou de fora da categoria de melhor diretor.

-  E já que existe toda comoção entre os favoritos em melhor filme e diretor, que justiça seja feita, depois de errar ano passado quando James Cameron viu sua grande, inovadora e lucrativa obra ser esnobada, assim como seu trabalho de realizador. Pode até O Discurso do rei levar de filme ou diretor, mas A Rede Social merece algum desses prêmios também (senão os dois), e já que isso não é difícil de ocorrer, pois já foi feito antes - mesmo não sendo ideal -, pode acabar com um David Fincher tendo de ser glorificado daqui à anos por uma obra inferior, com eles desfazendo um erro deste ano. Fincher tem inimigos em Hollywood, mas isso não deve justificar ele morrer sem um prêmio depois de fazer a diferença na indústria.

- Se Toy Story 3 não levar como melhor animação, eu nunca mais vejo o Oscar.

Resenhas dos 10 indicados na categoria de Melhor Filme:


Os filmes são escolhidos por 5.755 membros da Academia, e os vencedores serão conhecidos hoje ma 83a. cerimônia de entrega dos prêmios principais que ocorre a partir das 22 horas e será exibido pela TV Globo (com cortes) e pelo canal pago TNT (na integra e antes o tapete vermelho).

'Burlesque' funciona como diversão sem compromisso (para fãs do gênero)

Clichês e a longa duração quase comprometem filme que apresenta bons números


 
A empreitada pode soar irrelevante e causar indiferença para a maioria das pessoas,  mas aos fãs de música pop ou amantes da cultura pop, a ideia de um musical estrelado por figuras icônicas como Cher e Christina Aguilera, consegue causar um certo grau de ansiosidade ou, pelo menos, curiosidade. Mesmo sem inovar e acrescentar algo no que já foi mostrado, Burlesque (EUA, 2010) cumpre seu papel como entretenimento fácil e sem deixar o ostracismo acabar de vez com o gênero musical nas telonas. Nem de longe é o melhor do gênero da última década, mas consegue se sobressair para o público, da qual, foi destinado.

O filme conta a história de Ali (Aguilera) que abandona o emprego sem perspectivas da pequena cidade natal e embarca para Los Angeles, onde busca realizar o sonho de ser uma cantora e dançarina. Em seu caminho, surge Burlesque, uma casa noturna que apresenta variados shows no estilo burlesco. A determinada moça, se embrenha pelo lugar e vira garçonete. Lá conhece os personagens que aos poucos vão intercalando tramas paralelas em meio a apresentações musicais. O interesse amoroso é o barman Jack (Cam Gigandet), que também é compositor; o rico construtor e frequentador do bar Marcus (Eric Dane) - que repete com mais seriedade o que faz como Dr. McSteamy em Grey's Anatomy; o figurinista Sean (Stanley Tucci), também repetindo o estereótipo usado em O Diabo Veste Prada; a invejosa e principal estrela Nikki (Kristen Bell) e claro, Tess (Cher) a dona do lugar, com imagem dura, mas que se mostra maternal quando necessário.

Se os personagens já são puro clichê, a o roteiro também não contribui em nada. Além da velha história da moça que sonha pela fama, o Burlesque corre o risco de ser fechado e Tess busca alguma forma para incrementar os shows. É então que Ali é descoberta pelo seu bom potencial de dançarina e logo mais por sua voz. A situação melhora quando a moça passa a ser a estrela principal, mas não é suficiente para salvar a casa. Enquanto isso, Ali vai se envolvendo com Jack, esse comprometido (apesar de que a noiva só aparece pra criar stress), e também com Marcus, que visa comprar o estabelecimento e de quebra ficar com ela. As falhas se estendem por: essas aparições de personagens que servem apenas para criar alguma tensão, as soluções que surgem de forma pouco convincentes e banais, além da própria direção que cai em elementos ultrapassados - alguém ainda aguenta uma cena de transa destacando a chuva na janela?

Todos personagens são mal aprofundados - mesmo que isso pouco importe quando se trata estereótipos já resolvidos em outras produções. Mas, o problema mesmo é a protagonista, que diferente das referências de outros musicais como Chicago (EUA, 2002) e Moulin Rouge! - Amor em Vermelho (EUA, 2001), não consegue criar a simpatia importante de heroína. Isso, sem contar na longa duração que também não ajuda a paciência em encarar os erros - mesmo que incrementando variados números musicais. Afinal, se você sabe o que vai acontecer, pra que esticar as cenas mais banais?

Mas Burlesque se defende com as boas performances e isso o diretor Steve Antin se garante como bom realizador. Christina Aguilera, que se sai bem como atriz (ao considerar seu primeiro papel), fica ainda melhor nos momentos em que precisa cantar e dançar. Os figurinos, a maquiagem, o cenário, a edição de vídeo são de grande qualidade e fazem a produção valer a pena à quem esperava por isso. As músicas são igualmente interessantes, mas sem causar maior comoção ou se tornarem memoráveis como algumas de Moulin Rouge, por exemplo. O lado negativo talvez fique com a Cher e uma canção triste - a atriz pode ser um ícone, mas ela não tem expressão facial necessária, não só nos dois números musicais, como nas cenas mais intensas.

De grande parte, a crítica pode se sentir confusa e envergonhada por encontrar virtudes na atração, mas Burlesque é, assim como outros filmes do gênero, um filme para um público destinado. Tem seus méritos e deméritos, mas é inofensivo. Na escassez de obras desse tipo, vale para dar um estímulo e rever os outros grandes musicais lançados e perceber que no geral, quem é fã do estilo, sabe que são certos elementos que os fazem interessantes. Aqui, é a famosa dupla Aguilera e Cher que segura bem a trama, ou alguém acredita que no lugar delas, artistas como, por exemplo, Madonna e Britney teriam o mesmo resultado satisfatório?

Trailer:


fevereiro 25, 2011

'127 Horas' retrata tensão claustrofóbica sem entediar

Produção é de arrepiar e sufocar espectador mais sensível


Danny Boyle é um dos poucos diretores que gostam de se aventurar pelos diversos gêneros cinematográficos. Desde o dramático Trainspotting (Reino Unido, 1996), ele não para e fica se aproveitando da fórmula de sucesso. Mas, claro que, ele também não deixa de exibir seu estilo moderno e ágil de refletir sobre existencialismo, amor e a realidade nesse variados tipos. Fala de tráfico de drogas de forma diferente, expõe seres humanos no limite da ética em uma ficção científica - Sunshine - Alerta Solar (Sunshine, Reino Unido, 2007)  - ou os insere em outras questões pouco inéditas no mundo do cinema, mas que causam um resultado ainda que avassalador, como em Extermínio (28 Days Later, Reino Unido, 2003) . Porém, ele é o diretor do sucesso de crítica e público, o romance Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire, Reino Unido/EUA , 2008) Por esse, ele leva o otimismo às alturas, mesmo em um país condenado pela pobreza. Em 127 Horas (127 Hours, EUA, 2010), o que sobressai aqui é mais uma vez o talento de Boyle em se aventurar por um gênero até então batido e fazer dele uma obra emocionante.

O filme é baseado em um momento angustiante de um ser humano qualquer: em abril de 2003, Aaron Ralston (James Franco), um jovem aventureiro influenciado pelo pai à praticar caminhadas e escaladas por lugares inóspitos, saiu sozinho para explorar o Blue John Canyon, no deserto em Utah. Narcisita e egoísta, não avisa ninguém para onde vai e apenas parte em busca de emoção. No caminho, ocorre algo inacreditável, ele encontra duas garotas explorando a região. Acabam ficando juntos por alguns momentos, banhando-se em uma caverna e gravando tudo. Após se despedirem, Aaron, sozinho, escorrega e cai por entre uma fenda e acaba com o braço preso uma grande pedra prensada na parede. A partir disso, são contadas essas 127 horas de sobrevivência naquele lugar isolado do mundo.

Como na sua obra Trainspotting, Boyle guia o personagem pelo cotidiano consumista e tumultuado das grandes cidades. Intercala imagens do deserto com praias e estádios lotados, comerciais de bebidas e personagens da cultura pop. Tudo isso está marcado na memória de Aaron e é a única coisa que ele tem para fazer: pensar na vida. E todas as pequenas coisas que surgem, logo são refletidas para o que passa na cabeça de um jovem de 27 anos, televisão, sentimentos de culpa, garotas... E quando aos poucos ele vai conseguindo calcular a quantidade de suprimentos, também faz um balanço sobre a vida. Traçar um paralelo com outro filme de sobrevivência como Náufrago (Cast Away, EUA, 2000), não é difícil. Mesmo que aqui é possível sabermos o que se passa um pouco na cabeça do protagonista, o náufrago arranja o famoso amigo Wilson para desabafar  e conseguir criar bons diálogos no longa, neste, é a câmera filmadora é que torna a rotina menos chata tanto para Aaron, quanto para o espectador. E é por aí também, que fica o claro retrato do que é importante nos dias atuais. Ele se culpa por esquecer um canivete original, mas o excesso de câmeras que carrega na mochila, parece justificável, já que nas sociedade das aparências o que importa é registrar todos os momentos, mesmo que banais.

Em termos técnicos e de atuação, o filme é excepcional. Seja na edição que mantém algum ritmo no filme, acrescenta momentos de tensão; a trilha sonora que por vezes é instrumental - lembra muito Extermínio - e outras são canções de pop ou rock; a fotografia que pede algo satisfatório, pois, a paisagem exterior não é a mesma do buraco que ele se enfiou; e principalmente a atuação de James Franco que está bem natural e consegue faz o público se colocar na 'sua' pele. Infelizmente o otimismo e a superação do personagem acaba caindo no lugar comum como de todas outras produções do gênero, e até mesmo o romance nas entrelinhas deixam o filme meio banal, pois tudo é muito superficial - mesmo que seja baseado em fatos reais. No entanto, Boyle segue trilhando seu caminho de realizador excepcional, sem trazer uma história original, mesmo que alguns casos sejam inusitados, e sim atualizando os gêneros que são marca forte no cinema. 127 Horas é muito mais do que a escolha de decepar um braço e assim sobreviver, e sim é sobre as escolhas que fazemos na vida que acaba nos levando em situações como essa da personagem, da qual, nos resta superar ou morrer. 

Trailer:


fevereiro 24, 2011

Ótima dose de drama familiar no cômico 'Minhas Mães e Meu Pai'

Produção independente tem história inusitada, mas contada com muita sensibilidade


Filme de famílias são sempre bons para analisar, ainda mais quando esses são postos em situações que divergem do padrão imposto, principalmente no subúrbio das grandes cidades norte americanas. Sempre o espectador consegue traçar um paralelo da própria casa com está assistindo. Em Minhas Mães e Meu Pai (The Kids are All Right, EUA, 2010) a diferença está na mudança dos novos tempos. Sai o patriarca tradicional e entra uma nova mãe. Mas a produção vai mostrar que mesmo essa troca de peças, o resultado final acaba sendo o mesmo: são filhos crescendo, crise conjugal, infidelidade... 

O filme é um retrato desse novo tipo de família, que é explorado de forma cômica em séries como Modern Family e quase autêntica em Brothers & Sisters. A trama é sobre o casal de lésbicas que são casadas há 20 anos, Nic (Annette Bening) e Jules (Julianne Moore) que conceberam, cada uma, um filho por inseminação artificial: Laser (Josh Hutcherson) e Joni (Mia Wasikowska). A família vive em perfeita sintonia, mas os filhos, próximos ao chegar na fase adulta, ainda se sentem inseguros. Ele por exemplo se droga em influência de um amigo (criado sob ausência da mãe e é um marginal), enquanto ela se sente pressionada em ser perfeita - nada mais natural do que gays tentarem desmistificar que não podem criar bem seus filhos e exageram na dose, intensificada pela busca da família perfeita. Joni por legislação já tem idade para solicitar à clínica médica os dados do homem que doou o esperma e, à pedido de Laser, acaba marcando um encontro com ele. Quando Paul (Mark Ruffalo) aparece, aos poucos a boa sintonia da família vai sendo perdida e as diferenças ganhando espaço.

Paul, um cara 'boa praça', passa a representar para os jovens o ideal de pai que eles nunca tiveram, àquele que desobedece algumas regras e, como eles já são crescidos, faz isso sem precisar contornar algum possível erro. No entanto, para as mães a situação é um pouco mais delicada, afinal não visualizam um espaço para ele, um desconhecido e que vive uma vida completamente diferente, mas elas sabem que ir contra isso é ir contra os filhos. Enquanto Paul é uma pessoal liberal que se preocupa muito mais em qual garçonete vai transar, Nic é um médica sistemática, por vezes controladora, enquanto Jules é um pouco mais solta, vivendo uma ideologia meio hippie. E como as duas são diferentes, a presença dele desestabiliza a relação entre as duas. A situação é agravada ainda mais quando Jules cede as características parecidas que tem com ele e assim ficam juntos.

Aos acostumados por um filme gay politicamente correto, podem se espantar aqui. É raro uma produção tão sensível que mostre que não importa o o tipo de relacionamento, na sociedade das aparências, a hipocrisia é presença frequente, mas só é exposta no momento em que a ideia de família perfeita pode ser perdida. E sobra às 'minorias' étnicas a confusão dos protagonistas, seja àquele latino que desconfia de Jules e Paul, ou a negra que é dispensada por Paul, quando esse se acha apaixonado por Jules. Os protagonistas da propaganda de margarina, são os tipos de pessoas que se preocupam com o meio ambiente e são 'contra' o preconceito, mas na hora da crise descontam em outros e até na bebida. No entanto, é quando Laser apanha do tal amigo e nem sequer revida, é que nos damos conta como a sua criação fez toda diferença e assim ele passa a dar valor de ter tido o lar, mesmo "diferente".

Fugindo do recorrente drama que faz qualquer um ao sair da sala de cinema deprimido - caso de filmes que se passam no subúrbio como Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road, EUA/Inglaterra, 2008) ou Beleza Americana (American Beauty, EUA, 1999), ambos de Sam Mendes - Minhas Mães e Meu Pai mescla a comédia, com pequenos toques dramáticos, atuações incrivelmente naturais que o fazem ser delicioso de assistir e seguir o cotidiano de uma família, da qual, não importa se são gays ou héteros, as relações humanas e sentimentais são únicas para todos tipos de pessoas, o que mudam são as provas da vida. E é incrível como isso foi mostrado com tanta sensibilidade, afinal apesar de tudo o que uma família passa, não importa muito a situação, o que sempre é levado em consideração aqui é, fazendo trocadilho com o título original, se as crianças estão bem. E nesse filme, sim, elas acabam muito bem e prontas para seguir em frente com suas duas mães.

Trailer:


fevereiro 21, 2011

'Bravura Indômita': faroeste romântico nos tempos modernos

Filme contrasta cinema atual com qualidade e história de amor bruto


Depois de conquistarem o prestígio da crítica e o Oscar de melhor filme por Onde os Fracos não tem vez (No country for old men, EUA, 2007), os diretores Joel e Ethan Coen ganharam também os holofotes. Cada filme lançado, uma explosão nas bilheterias. E não é a toa que o gênero, praticamente ignorado nos dias atuais, teve seu momento triunfal - não um retorno - mas uma sobre-vida merecida na escassez de bons filmes voltados ao público masculino. Entretanto, Bravura Indômita (True Grit, EUA, 2010) é um tipo de filme que mesmo sendo um faroeste, sempre voltado a um tipo de público, ele pode muito bem ser apreciado aos mais sensíveis sem qualquer medo. Só não deve esperar que a esperada ligação sentimental entre os protagonistas seja tão fácil quanto outros filmes disponíveis.

O longa é uma refilmagem de um clássico homônimo de 1969, e dizem ser mais fiel ao romance Charles Portis, da qual, ambos se basearam. Conta a história de uma garota de 14 anos, Mattie Ross (Hailee Steinfeld), que deseja vingar a morte do pai capturando o assassino Tom Chaney (Josh Brolin). Para isso ela pede a ajuda do Reuben "Rooster" Cogburn (Jeff Bridges), um sujeito ríspido, mal educado e semi analfabeto que já foi xerife e agora é um caçador de recompensas. Ela contará também com a ajuda do ranger texano LaBoeuf (Matt Damon) que também tem interesses em encontrar o fugitivo. Os três partem em sua busca em um hostil terreno indígena. O filme funciona muito bem em termos técnicos, com uma fotografia belíssima, mesmo em uma paisagem por vezes obscura, mas importante para acrescentar à trama uma tensão. O cenário comporta-se também como um lugar propício para auto conhecimento, ou apenas para forçar conversa entre viajantes. Por sorte, a trama foge da monotonia, e é até bem movimentada graças aos personagens que aparecem pelo caminho.

A partir dessa saga, a relação dos três vai se afinando de maneira sutil, e sem deixar perceptível ao espectador menos ativo, a tensão que ocorre entre os protagonistas e que levará a jovem fazer sua escolha final. Sim Bravura Indômita é um romance. Mesmo se passando em uma realidade crua, passando em uma época violenta em que a lei e o crime são separados por uma tênue linha e enforcamento a céu aberto é a maneira mais satisfatória como punição e exemplo ético. O romance não precisa ser consumado de maneira esperada, ele vem camuflado no estreitamento dos laços de amizade entre a inteligente e dedicada moça com os sujeitos mais velhos que rivalizam por sua atenção - um é a imagem de experiência e coragem, enquanto o outro é jovem e sensato. E, aos poucos, essa jornada vai fazendo se conhecerem melhor e perceberem que ela não é uma mocinha qualquer e sim tem o poder tanto de se intrometer nos negócios da família quanto não ter medo de ser mulher, mesmo com pouca idade.

O trunfo de Bravura Indômita está em mostrar cenas, da qual, denotam a tensão entre os protagonistas até chegar a escolha de Mattie, que fica ao cargo de Cogburn, que além de cumprir o que prometeu, ainda a resgata da morte eminente. Logo é selado o beijo entre os dois, feito de forma áspera no ferimento causado pela mordida de uma cobra e, por último, a poética cena do anti herói salvando a mocinha, cavalgando juntos, e pela primeira vez estão se abraçando. Depois de anos, ela agora está com idade que talvez esse amor teria uma consumação viável, próximo do reencontro dos dois. E tudo o que foi mostrado sutilmente, fica evidente e termina de forma simbólica, mostrando tudo o que o rude Cogburn representou para ela em seus momentos intensos - como ela mesmo diz - e de fato a fez ser a mulher que se tornou, sem nunca ter se casado e ser conhecida como rabugenta. Cruel, violento e em um ambiente hostil e inóspito. Não teria forma diferente de se ver um filme romântico vindo dos difíceis diretores.

Trailer:


fevereiro 18, 2011

Confira o explosivo novo trailer de 'Thor'!

Cenas inéditas tem mais ação, história e momento 'Crepúsculo'...


O primeiro trailer de Thor já dava um gostinho do que podíamos esperar: uma história de fantasia com equilíbrio de ação e a história da lenda das HQs. Com o novo trailer divulgado, acrescente mais ação, comédia e... sensualidade - é isso mesmo? - com cenas maiores do personagem descamisado no maior estilo Jacob. Parece que o estúdio teme que a presença de Natalie Portman e o clima de romance não são garantia de público feminino. Veja e comente o que achou:


No filme, são mostrados a Terra e Asgard do Universo Marvel nos dias de hoje. No centro da história o Poderoso Thor (Chris Hemsworth), é um poderoso guerreiro arrogante cujas ações imprudentes reacendem uma antiga guerra no reino dos deuses. Ele então é exilado na Terra por seu pai Odin (Anthony Hopkins), e forçado a viver entre os humanos como forma de castigo. Uma cientista, Jane Foster (Natalie Portman), se afeiçoa profundamente pelo Deus, e se torna seu primeiro amor. É quando, aqui na Terra, Thor aprende o que é preciso para ser um verdadeiro herói, quando o mais perigoso vilão do seu mundo envia as mais sombrias forças de Asgard para invadir a Terra.

Dirigido por Kenneth Branagh, o longa tem estreia marcada para 6 de maio.

fevereiro 17, 2011

'O Discurso do Rei' é uma obra prima com temática edificante

Filme que lidera indicações ao Oscar tem atuações e a parte técnica acima da média


As 12 indicações ao Oscar, fizeram de O Discurso do Rei (The King's Speech, Inglaterra, 2010) um dos filmes que mais aguçaram curiosidade nos últimos dias, no entanto, sem grandes surpresas no roteiro como outros indicados, o ritmo lento (o filme é de diálogos), é bem capaz da produção não agradar à todos. Mas é aí que a direção faz toda à diferença no meio de produções com histórias pouco comuns como de uma bailarina complexa, sonhos manipulados e um sobre geração capitalista conectada. Claro que com base numa história real, sobre o Rei George VI, não seria fácil trazer algo de novo, ainda mais se tratando da família real inglesa, porém o que diferencia das outras produções, é a maneira de se contar uma história comum, que acaba tornando-se atraente com uma direção, produção e atuações afiadas.

Assim como o sucesso A Rainha (The Queen, Reino Unido, 2006), filme que mostrava os momentos depois da morte da Princesa Diana e como teria sido a recepção do acontecimento pela Elizabeth II, a boa aceitação de O Discurso do Rei mostra como o mundo tem simpatia em ver histórias da família real inglesa que sempre mistura eventos trágicos, curiosidades e escândalos. No sentido cinematográfico, mesmo controverso, a história do rei gago sai na frente. O filme conta a história de quando Albert Frederick Arthur George (Colin Firth), pai da rainha da Inglaterra, Elizabeth II, que assume o trono, mesmo sendo o segundo na linha de sucessão do Rei George V. Isso ocorre quando seu irmão David (Guy Pearce) abdicou do reino, depois de um breve período como rei, por se envolver com uma plebeia, americana e ainda divorciada duas vezes. Então Albert assume o trono em 1936, no momento em que o nazismo ameaçava a Inglaterra. Mas os problemas dele são ainda mais complicados que enfrentar Hitler. Por anos, depois de um discurso à pedido do pai que terminou em humilhação pública, Albert tenta se tratar de uma gagueira crônica que o faz ter uma certa fobia de microfones, algo essencial na família real. O futuro Rei George VI tem consigo o apoio da dedicada esposa (Helena Bonham Carter, feliz) e de Lionel Logue (Geoffrey Rush, certeiro), um fonoaudiólogo que, aos poucos, se torna amigo do paciente (curioso que os filmes indicados este ano também são coincidentes em uma características dos protagonistas: a fala. Seja ela no ritmo da troca de informação em A Rede Social, a voz reprimida em Cisne Negro e a dificuldade de discursar como Rei, neste).

A direção de Tom Hooper é excepcional. As câmeras, colocam a personagem no lugar que o dizia respeito, seja em cantos da tela, ou filmado sutilmente de cima para baixo, o que denota sua baixo estima ou como todos sempre o viam. Essa técnica de ângulos, causa tanto desconforto quanto a atuação de Firth que com muito sofrimento consegue terminar uma frase. É essa tática que faz o filme diferente e interessante de ser assistido, mesmo que muito dialogado. A parte técnica e a dupla Geoffrey - Firth sustenta por vários minutos conversas naturais, permite diversos momentos cômicos quando experimentado os métodos diferentes de Lionel e principalmente, revela um pouco ao público o que é passar por esse tipo de problema, além do acontecimento histórico envolvendo a monarquia real.  O clima de tensão do nazismo se aproximando, é ajudado com a fotografia escura que permeia toda a produção, além das cenas externas com muita névoa e a constante trilha sonora dramática.

Mas infelizmente, O Discurso do Rei, mesmo que impecável em diversos momentos e merece todos elogios a sua embalagem, ainda não consiga prender pelo ritmo do roteiro. Com pouco aprofundamento histórico - nem mesmo a presença de Hitler em uma pequena cena, da qual, o Rei se surpreende com a boa retórica do ditador - consegue-se criar uma tensão necessária, para impulsionar o arco principal e entregar ao clímax e um desfecho mais emocionante. Acaba soando meio raso e previsível, até surpreendendo menos que outro dos indicados que cai no mesmo tema edificante, O Vencedor. A diferença é que o charme e a eficiência inglesa se destacam em uma obra prima, da qual, Hollywood se rende à cada nova produção vinda de lá.  

Trailer:



fevereiro 11, 2011

'O Vencedor' se aventura pelos gêneros e emociona

Filme sobre o boxe não se limita ao ringue


A temática boxe nos cinemas está marcada por ser quase sempre repetitiva, talvez pelo foco sempre voltado para as lutas misturando histórias edificantes ou trágicas. Pra quem não curte filmes sobre o esporte, até pode se irritar um pouco com o conteúdo do filme O Vencedor (The Fighter, EUA, 2010), mas para quem gosta um bom cinema, vai ter uma bela surpresa ao assisti-lo e perceber que o filme incorpora outros temas como  drogas, relacionamentos familiares e romance. Explorar algum ponto que ainda não havia sido retratado antes com a temática está cada vez mais difícil, esta produção simples, com elenco incrível, pode até não ser o filme definitivo do assunto, mas de longe é um dos melhores e ainda baseados em fatos reais.

O filme consiste na história de Micky Ward (Mark Wahlberg), "irlandês" que mora com a grande família num bairro pobre de Boston e, segue os passos do irmão Dicky Eklund (Christian Bale), um lutador de boxe que viu sua carreira acabar e agora tornou-se um viciado em crack. Com uma emissora de TV preparando um documentário sobre Dicky, aos poucos o filme mostra como ele e a matriarca da família (Melissa Leo) são cúmplices um do outro - ela nem imagina como o filho está afundado nas droga -, e assim atrapalham a carreira de Micky, quando assumem o trabalho de empresária e treinador do jovem.

Porém, Micky passa a perceber como isso o afeta depois que participa de uma luta, da qual, ele perde e ficou bem ferido, só participou por escolha dos dois que pensavam no dinheiro. Com o apoio de Charlene (Amy Adams) ele passa a notar o quanto perde estando no domínio dos familiares. Essa primeira parte do filme é tratada com humor, como se os personagens não estivessem nem aí para os problemas de Dicky, que na comunidade é tratado como uma celebridade. Eis que, perto de perder a parceria com o irmão, Dicky se envolve na criminalidade em busca de dinheiro, já que o irmão deseja voltar à faculdade e precisa de fundos, mas termina preso - e por pouco não leva o irmão junto. Na cadeia, finalmente, o documentário é exibido e todos ficam ciente dos graves problemas de Dicky.

Fica claro que a partir desse momento, o clima melodramático toma conta e a relação conturbada entre os dois é que mantém a história interessante, já que mesmo com ódio do irmão, Micky sabe que sem ele não teria chegado tão longe. O momento decisivo está na superação das diferenças, inclusive nas pazes entre Dicky e Charlene pelo bem da carreira de Micky. Nos momentos finais, o apoio incondicional de Dicky, durante uma luta é o climax do filme e, sem dúvidas emocionante, denotando à volta por cima da personagem, e ainda acaba transformando-o no personagem principal, saindo-se como o vencedor ao lado do irmão.

Mas falar de O Vencedor, sem citar o bom elenco é impossível. A parte técnica nem é tão diferente do que já foi mostrado em outros filmes do estilo, no entanto até mesmo um ator irregular como Mark Wahlberg e a relativamente nova na indústria Amy Adams, se destacam e seguram o ritmo. Porém, são os coadjuvantes que realmente roubam as cenas. Christian Bale está espetacular, conseguindo incorporar o problemático irmão e ao mesmo tempo boa praça brincalhão, enquanto Melissa Leo também consegue convencer como a mãe meio caipira e extravagante, soando até de forma natural. Emocionante e simples, O Vencedor extrapola os ringues e parte para a luta mais difícil: a própria vida.

Trailer:



'X-Men: First Class' tem primeiro - e bom - trailer divulgado!

Equilíbrio entre efeitos especiais e história fazem a diferença


Esqueça X Men Origens: Wolverine ou simplesmente  X Men 3: O Confronto Final. A 20th Century Fox resolveu dar um reset na franquia, sem fazer ficar sem sentido e pra isso pegou uma edição que automaticamente fazia isso sem dor. Com a Marvel querendo melhorar a qualidade das produções, não é estranho perceber que X Men First Class parece ser um filme bom. A vibe anos 60 dá um refresco no mundo das adaptações de HQs, assim como ocorreu com Watchmen e veremos (num período ainda anterior com a 2ª Guerra Mundial) em Capitão América: O Primeiro Vingador.


>> Super Bowl trailers: Capitão América, Thor e muitos outros!


Na trama, se é mostrada a gênese dos X-Men, que se passa nos anos 60, época em que Charles Xavier (James McAvoy) e Erik Lensherr (Michael Fassbender) se encontraram pela primeira vez e quando eles ainda não tinham assumido os nomes Professor X e Magneto. Confira o primeiro trailer de X-Men First Class:



January Jones (Mad Men), Rose Byrne (Damages), Jennifer Lawrence (Inverno da Alma), Nicholas Hoult (Direito de Amar) e Kevin Bacon também estão no elenco. Dirigido por Matthew Vaughn, do ótimo Kick Ass - Quebrando Tudo, o filme chega aos cinemas em 3 de junho.
Fonte: Rolling Stones

fevereiro 10, 2011

'Cisne Negro': a assustadora fábula moderna contada com maestria

Um dos filmes mais desafiadores dos últimos tempos


No documentário de Sophie Fiennes O Guia Pervertido do Cinema (The Pervert's Guide to Cinema, Inglaterra, 2006), o psicanalista esloveno Slavoj Žižek faz uma leitura de grandes obras cinematográficas, e apresenta uma série de exemplos de como o cinema não dá ao público o que ele deseja e sim o diz como desejar. Para isso, utiliza de ferramentas que são comuns (consciente ou inconscientemente) ao espectador, como a psicologia complexa de personagens e seus desafios. Dessa forma, despertam o desejo, mas sempre mantendo uma distância segura, fazendo-o aceitável e fácil de degustar. Quanto mais comercial o filme, menos ele abusa dessa complexidade, e quanto mais autoral, maior a dose de uma nova experiência. A obra de Darren Aronofsky, Cisne Negro (Black Swan, EUA, 2010) não é pra qualquer um, assim como outros filmes do diretor, uns podem gostar, mas fará sentido talvez. Não ao menos que se mergulhe profundamente na trama e, mais do que o costume, uma boa bagagem sobre conhecimentos de psicologia podem fazer do filme uma experiência surpreendente.

Aronofsky apresenta uma história que levou dez anos para ser concluída e rejeitada por diversos estúdios. O filme presta uma homenagem ao balé clássico introduzindo uma atmosfera sombria, e retrata a dificuldade de uma artista compor uma personagem quando se é necessário uma dupla interpretação ao mesmo tempo. Em qualquer forma de arte, interpretar diferentes personagens com personalidade opostas é complexo e desgastante, mas isso é intensificado no balé, da qual, é conhecida pela busca da perfeição. Essa característica e também da superação dos limites e até a autodestruição inconsciente são temas constantes no universo de temas do diretor, mas em Cisne Negro ele cria uma fábula moderna ao mesclar a famosa obra bolshoi O Lago do Cisne com o drama de uma jovem reprimida pela mãe e assim insere todos ingredientes já utilizados anteriormente. Em O Lutador, o protagonista era refém do que lhe dava prazer e do que preenchia sua vida, em Réquiem Para o Sonho, os personagens desiludidos por não alcançarem seus sonhos, cometem a autodestruição nas drogas. Até mesmo em obras menos autorais como A Fonte da Vida, é perceptível esses assuntos. 

A trama conta a história de Nina Sayers (Natalie Portman, com atuação irretocável) uma delicada e esforçada jovem, bailarina há anos em uma companhia de balé de Nova York, que tem a chance da sua vida quando o diretor artístico Thomas Leroy (Vincent  Cassel) anuncia a encenação de O Lago dos Cisnes. Com a principal bailarina Beth MacIntyre (Winona Ryder) se afastando por ser considerada velha para o papel, Nina e uma novata, Lily (Mila Kunis), vão disputar o posto. Nina sai na frente. Entretanto, O Lago dos Cisnes exige que a protagonista interprete dois papéis: a princesa Odette, o Cisne Branco, que tem a característica de ser frágil, vulnerável e graciosa e Odile, o Cisne Negro, que representa o lado oposto com malícia, segurança e sensualidade. Nina é perfeita como Cisne Branco, mas sua rival, se encaixa perfeitamente como a face negra do Cisne. Com a pressão do treinador Leroy, a jovem é levada a exteriorizar seus sentimentos mais sombrios e assim conseguir a interpretação perfeita para Odile, mesmo que seduzido por Lily para ela viver o papel.

O que poderia ser um trabalho difícil, mas compensador para qualquer artista, no entanto se torna um pesadelo para Nina. A jovem jamais exerceu uma liberdade significativa em sua vida. Sua mãe Erica (Barbara Hershey), uma ex-bailarina que largou o ofício para cuidar da filha, ao mesmo tempo que apóia o talento artístico da filha - pode-se questionar se ela realmente queria seguir o caminho ou foi obrigada -, a trata com um sufocante controle, sem deixar a jovem desenvolver com liberdade seus instintos naturais, como a sexualidade ou a raiva - a falsa liberdade está sintetizada no papel de parede do quarto, com borboletas estampadas, em contraponto da voz estremecida da moça. Nina é cárcere da mãe, uma mulher que teve a vida interrompida e condicionou o resto do seu tempo para ser perfeita com a filha, tanto que não demonstra qualquer sentimento oposto na frente dela, expressando sua desilusão em tentativas repetitivas de pinturas escondidas em um quarto. É aí que Lily se torna para Nina, não apenas alguém para rivalizar, e sim uma opção para buscar o lado jamais explorado, principalmente da sexualidade, sempre de forma inconsciente e assim criando uma tensão e mexendo com a sua lucidez.

Nos bastidores, Thomas força a jovem revelar esse lado reprimido de diversas formas, inclusive ultrapassando os limites com abuso moral e sexual. Ele parece ter o controle do que faz, mas não sabe que isso desencadeia em Nina, uma obscuridade intensificada pela extrema inocência  infantil que ela desenvolveu. A transformação em Cisne Negro, vem de forma violenta, cercando-a de ilusões, angustia e medo. Cria-se um alter-ego dentro da mente da personagem, já que ela precisa das características de Lily e assim chegar à perfeição, mas logo é assombrada por ele.  Aos poucos, o público vai entrando junto com a personagem num mundo cheio de paranóia, segue a transformação literal e assustadora dela como um Cisne e, ao mesmo tempo, briga com esse alter ego pelo controle do corpo. É nesse sentido, que o diretor capricha nos efeitos visuais e deixa claro que toda fantasia criada pela personagem torna o filme uma fábula cinematográfica moderna. Utiliza a boa trilha sonora mais uma vez criada pelo parceiro de Aronofsky Clint Mansell que mescla com a trilha da obra original assinada por Tchaikovsky, a fotografia que aos poucos esbarra no gênero terror e a edição que faz o público sentir na pele o esforço das dançarinas em cada movimento. Todos os detalhes são muito bem mostrados, desde a rotina das bailarinas, até a pressão que é ser uma estrela perfeita e o lado negativo disso.

Mas nenhum dos artifícios utilizados por Aronofsky, foi tratado com tanta maestria como a utilização dos espelhos em diversas cenas. Sabe-se que o significado deles em termos psicanalistas representa a busca pela identidade através da subjetividade da imagem refletida, o que o ser humano deseja para ele ou a construção de uma realidade. A realização das fantasias e até mesmo o detector de erros. No mundo do balé, ele é uma peça fundamental quando tudo é voltado pela busca pela perfeição. A vontade de Nina ser uma nova Beth, a obsessão pela perfeição, a distorção entre suas personalidades, e a criação do alter ego, são sempre mostradas através dos espelhos. São diversas cenas que estratégicamente ele aparece para nos revelar em que ela está se transformando até chegar ao clímax também em frente ao espelho, em uma luta consigo mesma. Ela é devorada por ele.  É no reflexo da janela no metrô, que Nina pela primeira vez vê Lily, e ali já percebe que a jovem é o contraste ideal dela. É também pelo espelho que o alter-ego é criado na cabeça de Nina.

Até que por fim, é no mesmo espelho que quando fragmentado, o alter ego mata o Cisne Branco libertando-se e Nina realiza uma cena cheia de segurança e dança de forma espetacular como nunca antes foi visto durante o longa. E é na volta do real, depois da fantasia perfeita, é no espelho que ela descobre que foi vítima de si própria, e assim como na história que o Cisne Branco - sua verdadeira face - se sucumbiu as características do Cisne Negro, e se feriu - e ainda se aproveitando do estilhaço do mesmo espelho, denotando a morte pela perfeição. É interessante observar também nesse climax, como a trilha sonora, sai dos palcos e é transposta para os bastidores, fechando a modernização da fábula, sem que ninguém esteja assistindo, apenas o público do cinema.

O sucesso de Cisne Negro como obra intensa, interessante, original e sedutora vem com várias características que mexem com os desejos do espectador - o desafiando em cada cena, em cada detalhe. E assim como Slavoj no documentário citou as obras de Michael Powell (Os Sapatinhos Vermelhos), de Alfred Hitchcock (Psicose e Um Corpo que Cai) e diversos outros, que abusam da psicologia para prender o público e tornar-sem memoráveis, Cisne Negro tem uma base sobre psicologia que dá pano para diversas discussões e análises e ainda se sai como obra prima do cinema moderno: é tão perfeito quanto a beleza e a poesia de cisne em um lago - um cisne negro, claro.

Trailer: