junho 27, 2013

Crítica: apesar de forçada, estreia de 'Scandal' prende a atenção

Seriado da criadora de Grey's Anatomy tem ritmo, mas sofre o mesmo mal da série médica


Em Grey's Anatomy, a rotina em um grande hospital se mistura com os problemas pessoais de médicos e pacientes. A vida dos protagonistas é mostrada trançando analogias com o que aparece naquele lugar. Mortes, amores, nascimentos, brigas, ética... Tudo é condensado para ganhar destaque individuais ou generalizados, com os eventos que tocam vários ao mesmo tempo - os acidentes mortais que são praxe. Seguindo essa lógica, o seriado é um sucesso absoluto, chegando agora à sua 10ª temporada, fazendo a criadora Shonda Rhimes ganhar ainda mais prestígio na ABC, emissora, da qual, o seriado é exibido. Não foi difícil para Scandal ser a próxima grande menina dos olhos da emissora, após alguns outros seriados feitos por ela sem grande repercussão.

No primeiro episódio, exibido pelo canal Sony na última segunda (24), Scandal une o que consagrou Grey's Anatomy. O bom equilíbrio entre o drama dos clientes e os protagonistas são o grande destaque, sendo que o caso do dia consegue ser tão interessante quanto. A estreia foi concentrada em mostrar a entrada de Quinn Perkins (Katie Lowes), uma advogada, para a equipe de relações públicas comandada pela famosa no meio Olivia Pope (Kerry Washington) e Stephen Finch (Henry Ian Cusick) - o Desmond de Lost. A partir daí ela já é inserida em um caso, que consiste em um assassinato que tem como acusado um herói de guerra. Ele se torna cliente deles, que precisam correr contra o tempo para provar sua inocência. Em outra vertente, é mostrado a relação de Olivia com o fato que lhe tornou famosa: ela trabalhou para o atual presidente dos EUA, Fitzgerald "Fitz" Grant (Tony Goldwyn), além de manter um relacionamento amoroso conturbado com ele - sendo esse o arco que se desdobrará pela temporada.

Um dos aspectos que fazem dos texto de Rhimes interessantes, é tocar em temas polêmicos, que apesar do contexto atual, na TV ainda são tabus. Nesse episódio o cliente foi um herói de guerra que tinha como drama ser acusada pelo homicídio da namorada ou se declarar publicamente gay (fazia parte do seu álibi). Grey's Anatomy é conhecida por esse viés liberal de intercalar diversos casos que vão desde o preconceito étnico, a homossexualidade (transsexuais, lésbicas, militares amantes, idosos gays), entre outros. Todos eles acabam muitas vezes de maneira feliz, como é de praxe nos programas da casa. Shonda não esconde seu posicionamento político democrata ao enfatizar que o soldado é republicano, então por isso o faz hipócrita. Apesar de ser uma ideia estática - existem alas dentro do partido republicano, como os libertários que é a favor de total liberdade individual -, ainda assim serve para marcar ainda mais o posicionamento da emissora com as minorias e simpatizantes que devem representar boa parte de sua audiência.


Esse é um dos deslizes dentre outros na séries, como o ritmo que é um tanto rápido, porém, seja comum para pilotos de seriados da rede aberta. Desse fato, outros acabam sendo comuns como a série médica mesmo sofre. Falta tempo para se aprofundar nos personagens e seus dramas e sobra tempo para explicações e explicações. De forma didática, o seriado tentou explicar qual é a função da firma, que ela não é uma equipe de advocacia e quer apenas provar a inocência de seus cliente, como um bom gerenciador de crises. Mas ainda assim, a explicação não colou. Como os clientes são aceitos na base da intuição, provavelmente a ética do grupo será posta à prova recorrentemente. O que lembra The Good Wife, mas que vai aos tribunais o tempo todo com as artimanhas do Direito. Fica bem claro que essa foi a fonte que Shonda bebeu sem culpa. Scandal promete intercalar política, vida pessoal e casos policiais, tão bem como o seriado de Direito da concorrente faz muito bem. No entanto, essa nova série deseja ser  mais dramática que The Good Wife - se isso for possível. Na sua terceira temporada nos EUA, é aguardar pra saber se o sucesso por lá vai se justificar, no primeiro momento se trata de uma série boa e só, um tanto inverossímil (presidente dos EUA de rolo com a protagonista é no mínimo forçado, antes um governador ou promotor), mas que tem potencial pra ir longe, talvez não tão longe como a série da Drª Grey.

junho 22, 2013

Crítica: 'Revenge' e o jogo cada vez mais perigoso

Temporada termina com muitas mortes e revelações


Em Game of Thrones, o continente de Westeros serve como tabuleiro para os Sete Reinos - que funcionam como peças - duelarem entre si pelo Trono de Ferro, o que representa uma vitória, visto que quem estiver no poder se salvará do Inverno que pode durar 40 anos. Em Revenge, a vingança de Amanda Clarke é o tabuleiro, as peças principais são seus aliados contra os Graysons, um clã que usa o poder do nome e a riqueza contra quem surgir à sua frente. Claro que as proporções entre as duas séries são enormes, mas a forma em que as tramas são colocadas muito se mostram parecidas. No final da segunda temporada de Revenge, exibida pelo Sony, na última quarta (19), mais uma peça saiu do tabuleiro e a vingança de Amanda ganha um importante novo aliado.

Foi uma temporada estável e que repetiu a densidade e o ritmo da primeira temporada com um bom episódio evento no meio dela. Por outro lado, o que parecia simples, a vingança de Amanda Clarke/ Emily Thorne (Emily VanCamp), acabou num emaranhado de tramas menores e que só serviram para criar momentos de ação. As "barrigas" (tramas menores para arrastar o enredo principal) focaram na Iniciativa, uma associação que estava ligada diretamente ao acidente que culminou na prisão do pai de Amanda e que usa suas informações captadas pelo hacker Falcon para extorquir pessoas. Outras foram: a mãe da Amanda que surgiu e saiu sem mudar muita coisa; o ambicioso irmão adotivo dela; o relacionamento de Amanda (Margarita Levieva) com os Graysons (a falsa Amanda, claro); o personagem de Aiden (Barry Sloane) que se juntou à Emily em sua vingança e ainda teve um relacionamento amoroso com ela; dois novos donos do bar de Jack (Nick Wechsler) e, finalmente, a política de Conrad (Henry Czerny) que esteve em campanha durante parte da temporada para ser governador.

Dessas várias subtramas, a que mais chamou atenção sem dúvidas, foi a ligada a falsa Amanda Clarke e os novos sócios do bar do Jack, que logo serviram como capangas de Conrad. Na lua de mel entre Jack e ela, um deles estava lá atrás de um laptop que tinha todos os podres dos Graysons, da qual, Amanda usou para conseguir dinheiro e se livrar dos dois. O episódio focou no sequestro de Amanda e Jack, no barco dele, e o resgate pelos mocinhos Emily e Nolan (Gabriel Mann). Infelizmente, no final, Amanda morreu, o que engatilhou novos rumos aos personagens e mexeu com o tabuleiro. Como uma boa novela, os episódios centrados na mãe de Amanda e no irmão adotivo criaram tensão, porém no geral, foram os mais fracos. Resta saber se a revelação de um filho perdido da Victoria Grayson (Madeleine Stowe) vai conseguir agitar a trama da terceira temporada.

Relacionados a Iniciativa, conheceu-se duas cabeças do esquema secreto, um deles foi vítima de Victoria, enquanto, Padma (Dilshad Vadsaria) a namorada de Nolan foi vítima deles. Nolan terminou preso graças à Iniciativa que provavelmente usou Padma e gravou um vídeo ligando-o ao acidente de avião. Falando em morte, Declan (Connor Paolo), estava no lugar errado, na hora errado e também morreu depois do ato explosivo da Iniciativa contra a Global Grayson - o ator já tinha reclamado do seu papel na série e, sinceramente, não fará falta. Descobriu-se que Conrad já havia se juntado à Iniciativa. Charlotte (Christa B. Allen) terminou dormindo, vai saber o por quê, enquanto seu namorado e pai de seu filho estava morrendo e seu pai sendo eleito. O destino de Aiden terminou em aberto. Ele foi pego pela polícia fugindo para o Canadá, acusado de ter roubado todo o dinheiro dos Graysons que estava na conta da Fundação Amanda Clarke, mas, estranhamente, apareceu solto procurando briga com Daniel (Josh Bowman) e pode ter sido assassinado por ele.

Essas subtramas, sem dúvidas impulsionaram o melhor para o final: Emily Thorne/ Amanda consegue chegar à tempo de Jack não atirar contra Conrad e diz a verdade sobre sua identidade. O comovente momento é o gancho um tanto óbvio, visto que o caminho trilhava para isso. Com a morte de Declan por falta de assunto para ele e Aiden que provavelmente vai sumir da série, mesmo que ainda vivo, fez abrir um grande espaço para Jack, o principal interesse amoroso de Amanda. Desde a morte de Emily, ele passou a ter o mesmo foco que ela: destruir os Graysons - então era questão de tempo para que a verdade viesse à tona para ele. Jack é daqueles personagens chatos, mas que ganhou uma dinâmica boa quando fora pressionado, desafiado, sendo um novo personagem vingativo. Essa raiva dele pelos Graysons e o amor por Amanda o faz restabelecer o poder de dois, dessas três baixas "do bem" - isso sem contar com a morte de Takeda (Cary-Hiroyuki Tagawa), o mestre de Amanda e Aiden, mas que virou malvado e foi morto por Aiden.

Sim, foram muitas mortes nessa temporada de Revenge. Muitos personagens matando e se livrando de corpos como se trocassem de roupa, muita gente entrando e saindo de casas - fico pensando como os Graysons tão ricos não conseguem encontrar um porteiro confiável. Volte e meia acontece um acidente, tentativas de extorsão, mortes e revelação de segredos na casa dos personagens e nunca se vê um empregado por perto, apesar de sempre entrar qualquer um, em qualquer horário. É risível as frases de Victoria quando um personagem entra do nada "Como você entrou aqui?", "Nossa, me surpreende que você não tenha sido anunciada", "Saia já da minha casa!", mas claro, logo mudam de assunto. Na casa de Emily/Amanda não é diferente, e logo ela, tão cheia de segredos... Entretanto, Revenge ainda empolga, mesmo com todos os deslizes, falta de lógica, as subtramas confusas e os personagens de novela mexicana. Amanda Clarke aos poucos está mostrando que é forte na queda, apesar de rivais tão poderosos e sua emoção lhe criando ainda mais conflitos. Resta saber se vai demorar muito para o Inverno chegar em Revenge, mas meu palpite, é que ele está chegando.

junho 18, 2013

Crítica: boa temporada de 'Grey's Anatomy' termina com personagem entre a vida e a morte

Nona temporada apresentou novo hospital que expandiu os horizontes da série


Depois de uma temporada instável, cheia de eventos repetitivos e claramente demonstrando desgastes na narrativa, Grey's Anatomy encerrou ontem (17) pelo canal Sony, sua nona temporada, com uma grande mudança que conseguiu injetar um novo fôlego na estrutura da série. O grande arco dos 24 episódios deste nono ano, foram os desdobramentos do controverso acidente de avião que ocorreu no final da temporada anterior. Com dois protagonistas mortos, Mark Sloan (Eric Dane) e a Lexie Grey (Chyler Leigh), eu mesmo estava para desistir da série. Ela caminhava para o absurdo, apelação e, obviamente, os roteiristas sabiam disso. Eis que essa temporada serviu para utilizar a tragédia e assim fazer uma imensa reestruturação no Hospital, consequentemente, na série - isso além de acrescentar novos personagens. E não é que revigorou a trama?

Mesmo com os personagens sem apresentarem grandes assuntos (relacionamentos proibidos ou doenças), o arco sobre o a indenização das vítimas do acidente desencadeou outros fatos, como a falência do Seattle Mercy Grace Hospital, sua venda que durou pouco e o (re)nascimento do Sloan Grey Memorial Hospital que assim conseguiu agitar a trama, dar uma sobrevida nas desgastadas relações entre os protagonistas e agora fez aumentar ainda mais o poder de decisões importantes que acontecem lá. Claro que, o time de roteiristas, trabalharam nessa reestruturação abusando de seu ótimo time de atores e inserindo cada um em um lugar de destaque e intrigas. Meredith Grey (Ellen Pompeo) e Derek Shepherd (Patrick Dempsey) figuraram como o casal feliz, apesar do luto da morte da irmã e do melhor amigo, eles muitas vezes foram o ponto de apoio de outros personagens. Agora sócios, são a peça principal até mesmo entre os mais importantes como a Miranda Bailey (Chandra Wilson) e Richard Webber (James T. Pickens). Ela passou parte da temporada grávida e, claro, depois de muito suspense, deu à luz.

Miranda e Richard por não terem vivido o horror do acidente, passaram a temporada meio que a margem dos acontecimentos, até terem a importância quando o hospital estava para ser vendido. Ela casou e ele se despediu da esposa doente. No final, Miranda e ele tiverem a relação estremecida depois de uma outra "barriga" criada para dar maior destaque nela que teve poucos momentos na temporada. Foram dela os bons episódios sobre a contaminação fatal de seus pacientes por ela. Richard corre risco de morte (o grande gancho para a próxima temporada). O casal Cristina Yang (Sandra Oh) e Owen Hunt (Kevin McKidd) mais uma vez se viu em crise, seja pelo acidente, da qual, ela foi uma das vítimas e ele era o chefe que acabou sendo responsabilizado, seja pelo fato dele querer um filho e, como sabemos, ela já abortou duas vezes na série. Toda trama sobre a Drª Yang é sempre muito emocional, e a metáfora dos últimos episódios sobre o menino, filho do paciente dos dois, e o pai que estava em coma, foi bem tocante. É complicado saber se desta vez, ela (talvez vendo a emoção da amiga Grey tendo um filho) terá o instinto maternal ativado.

O casal lésbico Callie Torres (Sara Ramirez) e Arizona Robbins (Jessica Capshaw) passou por diversas provações. Arizona foi o foco de muito drama, já que perdeu a perna no acidente de avião e toda sua recuperação foi acompanhada de forma muito ambígua pela esposa. Foram episódios com muito drama, desde a difícil aceitação de Arizona pela atitude da esposa de amputar sua perna, até a utilização de uma perna mecânica por ela. O sexo, a dor fantasma, tudo foi tratado com muita sensibilidade até os episódios finais, que Arizona trai a mulher com uma jovem médica (interpretada por Hilarie Burton, a Peyton de One Tree Hill). Foi o arco mais circular da temporada, pois todo o drama se voltou a atitude de Callie sobre salvar a vida da esposa. Agora, elas estão por um fio. Alex Karev (Justin Chambers) teve um affair meio amizade com a residente Jo Wilson (Camilla Luddington) que só deve ganhar forma na próxima temporada.

Outros residentes novatos lembram quando Meredith, Christina e Alex chegaram no hospital, suas lutas por atenção, seus erros, suas brigas. Parece que eles ganharam lugar cativo na décima temporada, e são sim muito carismáticos e com personagens bem definidos. Vale lembrar também de personagens que não tiveram grandes dramas, mas nem por isso não foram destaque como April Kepner (Sarah Drew) e Jackson Avery (Jesse Williams). Ela voltou pro hospital, quando Hunt foi atrás pessoalmente dela. Apesar de cuidar de pacientes de menor escala de risco, sua vida amorosa foi mostrada, a questão religiosa e foi até pedida em casamento, mas no final, se abriu com Jackson. Este, que só foi para os holofotes, quando sua mãe, uma famosa médica, comprou parte do hospital para salvá-lo, mas apenas com a condição dele ser o novo chefe, o que gerou muitos conflitos.

Sem dúvidas foi uma temporada eletrizante, principalmente na sua metade, quando o hospital declarou falência e passou por um grande processo de venda. Depois a união dos protagonistas que fizeram de tudo para salvá-lo de virar um local robotizado. Foram episódios tanto emocionantes com muita correira contra o tempo, até partindo pro tom de deboche, como o ótimo episódio em que a Callie e Richard vão espionar outro hospital que fora vendido para os que queriam o Seattle Mercy Grace. Esse equilíbrio de humor e drama conseguiram pôr o seriado médico mais uma vez no mapa na televisão como ótimo entretenimento, mesmo que ele não emocione mais como naqueles tempos em que as mortes de personagens importantes era tratada de forma mais emocional. A banalização fez mal ao seriado, porém, mesmo que tenha partido novamente para esse artifício, isso não mancha o legado da temporada que foi interessante e marcante. Bom saber que a morte de Sloan e Lexie abriu as portas para muito mais do que um simples fato chocante atrás de audiência.

junho 15, 2013

Crítica: a emoção vence a lógica em 'Star Trek - Além da Escuridão'

No final cristão, a emoção cheia de altruísmo leva a melhor


O seriado Jornada nas Estrelas (Star Trek), sempre foi centro de debates políticos e filosóficos, além de funcionar como um bom produto de entretenimento que conquistou milhões de fãs pelo mundo. Trazendo como centro ideológico está a nave Enterprise, símbolo da Federação Unida dos Planetas, que ao explorar o universo afora, tenta ajudar e moderar questões internas e também externas - utilizando boa artilharia militar. Como se passa em um futuro distante, fantasioso (e um tanto utópico), o seriado foi alvo de reflexões sobre analogias políticas do nosso planeta, sempre refletido em mundos inventados, o que serviu como uma liberdade para os roteiristas tecerem suas críticas e passarem sua mensagem. No entanto, na sobrevida ganha no cinema, após o longa de 2009, que contou a ascensão dos jovens Kirk e Spock como líderes, agora Além da Escuridão (2013) mostra melhor a diferença entre os dois e a busca de um equilíbrio.

O filme tem início com uma missão, da qual, a nave é enviada à um planeta primitivo, prestes a ser extinto graças a um vulcão em erupção. Spock (Zachary Quinto) entra no vulcão para deixar um dispositivo que irá congelar a lava, porém, seu plano sai errado e ele fica preso dentro dele. Eis que, James T. Kirk (Chris Pine), no comando, não só ordena que a nave saia do seu esconderijo no fundo do mar (para evitar que os nativos saibam da missão, interferindo nas suas crenças sobre o universo) como também eles acabam ajudando pessoalmente Spock. Tal atitude em oposição às normas, gera desdobramentos para Kirk que passa a sofrer represarias da Frota Estelar, sendo afastado do comando da nave. Depois de um ataque terrorista na Terra, Kirk acaba sendo remanejado ao seu posto para lutar contra John Harrison (Benedict Cumberbatch), o famoso vilão da série, também chamado de Khan, renegado da Frota e autor dos ataques (e que mais a frente explica seus motivos).

Apesar do histórico político da série, essa nova abordagem da franquia dirigida por J.J. Abrams - o próximo diretor de um novo ciclo da saga Star Wars - tem como maior intenção focar no entretenimento. A parte técnica que muito bem combina com a temporada de superproduções, não economiza em efeitos visuais - grande parte do filme é no espaço, o que em 3D garante uma emoção extra - e em outros aspectos como maquiagem, fotografia, trilha sonora, e por aí vai. O grande vilão não é lá tão aterrorizador - grande parte do filme eles lutam juntos contra um mal maior - e o foco do filme vai para a relação dos tripulantes da nave. E o entretenimento se vê envolto a uma mensagem um tanto melodramática e parcial.

Cinema é emoção. Spock é um ser em grande parte lógico. Sua frieza ao delatar o companheiro Kirk não só cria um atrito com ele, como também abala sua relação com seu interesse amoroso Nyota Uhura (Zoe Saldana). Na defesa de seu filme, o diretor, não polpa em bater na tecla que o maior problema do universo é essa frieza "absurda" de Spock. Tal sentimento - no primeiro filme, mostra sua raça vulcana sendo quase toda dizimada - sempre é confundido como um mal à sociedade, um mal à Enterprise - na visão de Kirk, claro. Depois de criar situações e mais situações e assim banalizar a mensagem do herói altruísta que é Kirk contra o companheiro, o roteiro vai fundo e sacrifica-o para salvar a nave. Se no sistema da Enterprise as regras precisam ser quebradas o tempo todo, Spock precisa da mesma forma ser confrontado e aprender uma lição, um tanto cristã - sim, cristã.

O problema de Além da Escuridão é este. O entretenimento por entretenimento não precisa mais de um roteiro cheio de lição de moral e quase ultrapassa a linha tênue piegas. Claro que a emoção é importante, mas seu discurso em sabotar a lógica, a razão, é um tanto extremista e a conversão de Spock, um ser que tem seus motivos de agir e beneficamente tem seus princípios, soa um tanto exagerada. A ressurreição cristã no final é o claro exemplo de que Hollywood bebe de uma fonte, da qual, o altruísmo é uma corrente sempre benéfica e sem lados negativos, que reflete na utopia socialista que Star Trek é acusada de ser. O que fica nas entrelinhas da hipocrisia da mensagem é que Kirk só reviveu depois do sangue do inimigo abatido salvar a sua vida. E por mais santo que Kirk seja - apesar de sempre por tudo à perder, arriscando a missão, sendo categoricamente fundamentalista - Spock sim é o ponto forte da história, sendo aberto ao aprendizado e passa a se equilibrar de forma racional a emoção e a lógica nas missões - parte dele salvar a comunidade do vilão. Uma pena que depois de alusões políticas pra lá de influentes, Star Trek ainda precisa cair na velha mensagem de heróis inocentes - um tanto atrasada para os dias de hoje.

Crítica: 'Depois da Terra' se aprofunda na mensagem, mas não convence

Longa morre na praia, mesmo com boa premissa


Medo. A palavra que provém do termo latim metus, tem por definição ser uma "perturbação angustiosa perante um risco ou uma ameaça real ou imaginária". Poderia muito bem ser tema de um filme de terror ou, basicamente, um suspense. Porém, nas mãos do diretor M. Night Shyamalan, ele se transformou em um filme de ficção científica com doses de drama familiar e um pouco de suspense. Com ideia original de Will Smith, o longa Depois da Terra (EUA, 2013) além de mostrar um futuro primitivo no planeta, faz uma reflexão religiosa sobre o sentimento de medo - com preceitos da controversa cientologia - e parte em rumo de um drama sobre crescimento, paternidade e traumas.

O filme conta uma história mil anos depois da Terra passar por mudanças radicais, se tornar um lugar hostil e forçar os humanos a se abrigarem no planeta Nova Prime. Após retornar de uma missão, o geral Cypher Raige (Will Smith) retorna à família e encontra seu jovem filho (Jaden Smith) se esforçando para ser um soldado como o pai, mas sem sucesso por o considerarem instável emocionalmente quando pressionado. Quando em uma viagem pelo espaço dá errado, fazendo a nave - em que os dois estão - cair no lendário Planeta Terra, se dá início à uma corrida contra o tempo do jovem encontrar um sinalizador perdido em outra parte da despedaçada nave, onde apenas ele e o pai (gravemente ferido) sobreviveram.

Essa jornada é contada intercalando flashbacks que mostram que o jovem passou, quando criança, por o trauma de perder a irmã de forma violenta, depois dela salvá-lo. M. Night Shyamalan conduz abusando de diversas características que o deram fama, mas também desprezo. Tem a intenção de fragmentar um filme de gênero e colocar uma alma para assim dar sentido na mensagem final, já foi explorada com sucesso no ótimo Sinais (2001);  fábula de "monstros à solta" é bem o que ele tratou em A Dama na Água (2006), A Vila (2004), Fim dos Tempos (2008) ou no fantasmagórico O Sexto Sentido (1999). A reflexão filosófica sobre responsabilidades e superação foi visto no infantil O Último Mestre do Ar (2010) e em boa parte dos citados, assim como todos eles dão ênfase em dramas familiares. Ou seja, o diretor tem como característica, incrementar nas narrativas, o que ele considera uma alma, uma sensibilidade adequada para complementar a ideia.

Na aparente falta de perspectivas depois de ser duramente criticado por essas obras, que não são excelentes, mas nem de longe são tão ruins como alguns extremistas dizem, o diretor encontrou numa ideia de Will Smith (e vice-versa) uma forma de explorar na ficção científica os conflitos pessoais e filosóficos de personagens que buscam uma redenção. Seja o filho que deseja se conectar com o ausente pai e superar o obstáculo oriundo de um trauma do passado e nesse pai que pela primeira vez ensina seu filho a viver os tormentos da vida pós apocalíptica (representada pela entrada na adolescência). Para passar essa mensagem e debater sobre esses dilemas e problemas, o roteiro é razoável, porém na contextualização, tanto visualmente, quanto na maneira que ele evolui a história, Depois da Terra é um filme ruim do diretor.

A ótima intenção da mensagem sobre o "medo" se vê perdida em situações constrangedoras de momentos entre "pai e filho", pulos que se transformam facilmente em vôos, aves gigantes amigas, as atuações ruins dos atores - Will Smith, símbolo de carisma, mas aqui está cinzento, sem graça - e seu filho tem um papel muito pesado nas costas, mas que com muito esforço até segura o filme do início ao fim, sem ser um desastre. Outro ponto negativo, é a direção de Shyamalan. Lá estão novamente enquadramentos feios, pobres e que no lugar de acrescentarem na história, apenas confundem os olhares. Criticam sobre a mensagem ter conexão com a religião de Smith, ou que o ator é tão egocêntrico e arrogante que deu um filme de presente para o filho. Bobagem. Em outra leitura, pode sim dizer que o ator queira inserir o filho na indústria cinematográfica, mas depois de uma repercussão negativa - o diretor já está acostumado - Jaden pode levar como maior lição que a hostilidade dentro de Hollywood e todos os veículos midiáticos que o cercam, são apenas contraste da fome pela carniça alheia, e é muito bom que a cientologia ensine sobre coragem e desmistifique o medo, assim, quem sabe, ele pode um dia ser como o pai, que tanto já fez pela indústria, agora paga o preço.

junho 14, 2013

Crítica: Com temporada instável, 'Da Vinci's Demons' termina eletrizante

Gancho final melhora a série que soa forçada em vários momentos


Quando comentei o sobre o surpreendente começo da série Da Vinci's Demons, critiquei que grandes personagens como ele, sempre são deixados de lado em produções televisivas, diferente de personagens como a inescrupulosa e controversa família Bórgia que sempre tem seu lugar cativo. Quando o seriado parecia mostrar Leonardo da Vinci pelo menos de forma coerente, já que a trama tem todo o cuidado com a contextualização, mesmo que tenha mostrado que não ia seguir à risca a realidade, o que foi visto foi apenas uma caricatura do grande gênio.

O seriado que finalizou sua temporada nesta semana, sendo exibida pela FOX Brasil com apenas dois dias de diferença da estreia nos EUA, se mostrou uma grande sopa que mistura fantasia, sexo, violência, intrigas e mistério. Tendo como base o sucesso de Game of Thrones, a impressão que se tem, é que o seriado na verdade se perdeu em não ter um foco definido. Ao mesmo tempo em que se via os dilemas de Da Vinci (Tom Riley), e ele sempre com jeito infantil e moleque saia das confusões, por outro, a produção não economizava em nus frontais de idosos e afins. Dessa forma, é como se ao mostrar a juventude de Da Vinci, o que simbolizava numa forma mais aventuresca de apresentar o protagonista, o seriado também tivesse uma vontade de se transformar numa série adulta sem limites - com direito à cenas de puro mau gosto, como de zoofilia.

Apesar dos exageros e tramas que soavam forçadas, o seriado nos seus dois episódios finais conseguiu encontrar o foco que era aguardado. Remetendo ao início, dois grandes arcos mostraram ao que vieram para assim serem finalizados. O mistério de quem seria o grande delator de Florença para Roma, foi descoberto, mesmo que já tinha sido mostrado para os espectadores, porém essa revelação para os personagens seria bombástica, pois se trata de Lucrézia Donati (Laura Haddock), amante de Lorenzo Médici (Elliot Cowan), que controla o estado. O crescimento heroico de Giuliano de Médici (Tom Bateman) e seu final, também garantiram boas emoções. O outro arco foi de Leonardo, que após um flashback conheceu-se os Filhos de Mitra e que apenas um deles o veria ascender e guiaria o jovem para busca o Livro das Folhas na, ainda não descoberta, América do Sul. Assim, matou-se também o mistério envolto do feiticeiro Turco (Alexander Siddig).

Com um grande gancho para a próxima temporada - a série já foi renovada pelo Starz - é esperar pra ver se agora os roteiristas, tenham um foco menos agitado e mostre Leonardo com dilemas mais maduros sem cair nessa essência de jovem aventureiro ou assumir esse lado familiar, e melhorar nas cenas mais explícitas que destoam do que é o seriado, pois até agora não descobri sobre o que de fato ele é: um Bórgia vestido de Médici ou sobre o gênio e seus demônios psicanalíticos. Apesar, disso, o final me intrigou.

junho 10, 2013

Crítica: A temporada sangrenta e irregular de 'Game of Thrones'

Reviravolta no penúltimo episódio salva a série do limbo


Nada como um massacre para sacudir o tabuleiro da série Game Of Thrones que finalizou sua terceira temporada nesse domingo (09) em transmissão simultânea com os Estados Unidos pela HBO Brasil (que merece todos os elogios possíveis). Se a jornada da guerra entre os sete reinos andava monótona, a "morte" de dois personagens principais sacudiu a trama que gerou comentários desesperados dos fãs pelas redes sociais e rodinhas de conversa - principalmente dos que não acompanham a trama pelos livros (que dizem traçar caminhos cada vez mais diferentes, não só quanto caracterizações, mas no caminho que alguns personagens estão seguindo). Sob orientação do autor dos livros, George R. R. Martin, a terceira temporada adaptou cerca de 2/3 do terceiro livro da saga As Crônicas de Gele e Fogo: A Tormenta das Espadas.

Porém, a impressão de vislumbre após o fim de cada episódio, passa para um certo descontentamento. Com apenas 10 episódios, o seriado continua sofrendo de coerência em relação à jornada de alguns personagens. São diversos núcleos em constante movimentação que confundem a cabeça de qualquer um, já que a maioria das histórias ganham pouco mais de cinco minutos por episódio. Sem tempo pra explicar demais, o seriado então tenta focar nos mais poderosos - o que faz alguns perder qualquer sentido, deixando como esperança para no futuro a importância deles fazer algum sentido. Com o psicopata Joffrey Lannister (Jack Gleeson) no poder, o destaque da família ficou para o casamento de Sansa Stark (Sophie Turner) com Tyrion (Peter Dinklage), o que gerou uma onda de piadas. Foi a temporada que mais se aprofundou nesse clã. A dinâmica entre os filhos Tyron e Cersei (Lena Headey) com o pai (Charles Dance); dilemas entre os irmãos - o último episódio guardou um lindo diálogo sobre o que pra eles significava a felicidade e a importância das responsabilidades; e ainda a futura rainha Margaery Tyrell (Natalie Dormer) que roubou a cena com sua avó Lady Olenna Tyrell (Diana Rigg). É cedo dizer, mas os dias deles no Reino de Ferro me parecem estarem contados.

Os Starks que passaram mais uma temporada longe um dos outros, tiveram um dos finais mais tristes. Apesar de um choro contido de Sansa ao saber da notícia da morte de seu irmão Robb (Richard Madden), e sua mãe, Lady Catelyn Stark (Michelle Fairley), os personagens se por algum motivo não voltarem à vida - a temporada deu bastante foco nos poderes de ressurreição pelo Senhor da Luz - vão fazer falta. Mesmo que ambos tenham passado a temporada discutindo, e Robb chegou a pedir a prisão de sua mãe, eles foram vítimas de uma traição dolorosa e desumana. Arya (Maisie Williams) - que só falta passear pelo Leste, já que andou a metade do mundo - e Jon Snow (Kit Harignton) são agora o centro dos Starks, que como os dragões da série, vão ter de crescer um pouco para ganharem mais relevância.

Falando em dragões, eles são a principal arma que a princesa Daenerys (Emilia Clarke) tem usado para libertar povos e mais povos rumo à conquista do trono de ferro. Abusando de seu senso de justiça, a jovem não só tem ganhado a confiança de vários povos importantes, como tem sido clamada a mãe deles (quer algo mais forte e que remete à uma fidelidade incondicional que isso?). Foram momentos gratificantes, como sua inteligência ao libertar escravos e o povo de dois tiranos diferentes. O final mostra bem o que já era perceptível, enquanto os outros reinos estão em ruínas, com exceção dos que estão no poder, Daenerys tem uma rede ainda mais forte de apoio, além, claro dos seus filhos dragões. Curioso no último episódio que fora citado como seu ancestral havia tomado o reino com ajuda de dragões, o que só fez fortalecer a impressão que a moça vai longe.

Quem citou isso, foi o núcleo do Lorde Stannis Baratheon (Stephen Dillane) e sua fiel conselheira  Melisandre (Carice van Houten), que tiveram o antigo aliado Davos Seaworth (Liam Cunningham) fazendo o papel de questionador sobre o Lorde está com uma feiticeira ao seu favor e a ética desse meio controverso de chegar ao poder. Esta tem feito sua recorrente feitiçaria no intuito de matar importantes líderes - que por um acaso tinha Robb no meio. É esperar pra ver se a macumba pega no Joffrey também. Essa trama, sempre sexual e imprevisível terminou com a fala de Melisandre deixando claro o foco que o seriado deve explorar nos próximos capítulos: o povo morto vivo do norte que vai causar muitos problemas em breve, e não interessa a guerra entre os reinos.

Game of Thrones finalizou uma temporada estável, que perdeu o ritmo após um outro evento chocante - a mutilação de Jaime Lannister (Nikolaj Coster) enquanto refém -, mas conseguiu se recuperar com o impactante penúltimo episódio. É claro que todo o sucesso do seriado é graças a imaginação de seu criador, e não basicamente do que é visto na série - digo, o seriado por si só, não consegue se sustentar. Mortes e reviravoltas sempre dão um gás extra na trama rebuscada e complexa, mas a adaptação para a TV por vezes deixa à desejar - daí entra a importante parte técnica pra explorar os cenários da mitologia, como a marcante sequência em que mostra Jon Snow e a namoradinha em cima da grande muralha de gelo. Infelizmente, é complicado a compreensão total do seriado, que talvez se fosse ainda mais remodelado para a televisão, viria melhor a calhar dando maior profundidade aos personagens, em sua maioria, superficial. Mas isso não importa, o que todos querem saber, é como isso tudo vai terminar.

junho 08, 2013

Crítica: 'O Grande Gatsby' remonta, com exuberância, a desilusão americana

O carnaval trágico de Baz Luhrmann é contagiante


O diretor australiano Baz Luhrmann é, sem dúvidas, daqueles que pode se considerar um realizador autoral. Suas características criativas próprias refletem em qualquer longa assinado por ele. Se Hollywood cada vez mais carece dessa virtude, ele é um desses alívios no meio de tanta produção igual. Seu maior trunfo até então, apesar de dividir opiniões com o bem experimental Romeu + Julieta (1996), é o marcante musical Moulin Rouge - Amor em Vermelho (2001) que tem fãs espalhados por todo o mundo e deu novo gás ao estilo do gênero dramático. Com poucos filmes na carreira, o diretor conquista o sucesso de público com a mais nova versão do clássico da literatura americana de F. Scott Fizgerald, O Grande Gatsby (Austrália e EUA, 2013), sem, no entanto, conseguir aprovação da crítica.

Mas Luhrmann não se acanha. Seus filmes seguem o estilo quase igual de uma produção para outra. São sempre obras grandiosas, com uma parte técnica marcante, o visual exuberante, fotografia, figurinos, edição, efeitos visuais, assim como a trilha sonora. Como na sua versão do clássico de Shakespeare e também no musical da famosa casa noturna de Paris, O Grande Gatsby é um filme com pretensões artísticas contemporâneas, bebendo desde a fonte do jazz mais clássico, até a grandiloquência da indústria pop atual. Criticam que sua fórmula extravagante acabe engolindo a narrativa, o roteiro. Falam que os efeitos do filme, assim como a atmosfera exagerada para a época, é algo de mau gosto, cafona. Mas, então, não é divertido?

Sabe-se que o livro é muito famoso nos Estados Unidos, da qual, é leitura obrigatória no ginásio. Já foram feitas outras três transposições para o cinema, e nenhuma se deu bem - criticaram principalmente o ritmo das narrativas. Então, Luhrmann vai ao seu extremo de ousadia - já errou com o interminável Austrália (2008) - e entrega um filme moderno, com uma narrativa que se mistura literalmente com o visual extraordinário do longa sem perder o fio da meada. Funciona como um videoclipe de luxo, poderoso, bem condicionado e ritmado.

A história se passa nos dourados e bagunçados anos 1920, e tem como protagonista Nick Carraway (Tobey Maguire) que depois de avistá-lo, passa a ter uma certa obsessão por seu vizinho, o misterioso Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio). Eis que Gatsby convida o jovem para uma de suas famosas festas. E o que tem de famosas, tem de extravagantes. A mansão do milionário se transforma praticamente em um Moulin Rouge de cores e ritmos. Sem distinção de classes sociais. Depois disso, os dois passam a ser amigos, mas Gatsby continua cheio de mistérios. Então, Nick descobre que o novo amigo é uma antiga paixão de sua prima Daisy Buchanan (Carey Mulligan), uma mulher que é um verdadeiro sonho em carne e osso, e desperta em qualquer homem uma atração natural. Nick deseja fazê-los voltar com o relacionamento, apesar de Daisy ser casada com o também rico Tom Buchanan (Joel Edgerton).

A história se desenrola como uma novela. Com grandes momentos dramáticos - as atuações são grandiosas, desde Tobey Maguire, dividindo muito bem as atenções com o grande astro Leonardo DiCaprio (pra mim um dos melhores atores de sua geração) até o casal Carey Mulligan com Joel Edgerton - este num papel de vilão, mas que tem uma profundidade nada comum para cair em clichês. A visão do contexto geral, também é um grande trunfo. O diretor consegue inserir muito bem o espectador dentro daquela América proibida, grandiosa e rica, não se importando para a lei seca, e vivendo aquela ilusão dourada que parecia nunca terminar. O sonho é sempre refletido no olhar de admiração de Nick por Gatsby, aquele homem que cresceu de forma genuína pelo amor, mas agora sobrevive de fraudes - um de seus segredos bem guardados. O castelo na verdade é de cartas de baralho no lugar de concreto, pronto pra desabar.

Juntando a ascensão dos poderosos e a marginalidade dos mais pobres - esses servem como amantes, válvulas de escape que nunca serão assumidos, nem depois de mortos - a história caminha ainda no vale sombrio do que é o ser humano que se corrompe quando ocorre o desequilíbrio na dosagem de amor. Gatsby apesar de ter tudo, também vive olhando na vitrine o que é o seu maior desejo: Daisy. E assim perde a cabeça. Esta é apenas um sonho, uma representação deles sobre a mulher perfeita, de três homens que lhe cercam sem culpa alguma. Lurhmann trata disso tudo como uma grande festa, sem espaço pra melancolia, mas que como todos sabem, começa a ruir não só com a crise econômica de 1929, mas também com a decadência moral e o abuso por parte dos abutres que retalham as vítimas desse medo, não o que tem o sentimento, mas o que sofreu por causa das ações do medroso. Energético, divertido, inspirador. Essa leitura de O Grande Gatsby é um emocionante sopro de vida e ousadia no cinema.



Crítica: 'Faroeste Caboclo' homenageia hino do rock brasileiro, mas com atraso

Romeu e Julieta à brasileira


"(...) Não entendia como a vida funcionava, discriminação por causa da sua classe e sua cor". Esse é um dos trechos de Faroeste Caboclo, obra prima do rock nacional produzido pela banda Legião Urbana, que depois de anos do lançamento, chega aos cinemas para continuar a série de homenagens ao grupo musical após Somos Tão Jovens, filme sobre a origem da banda liderada por Renato Russo. A música, foi a base para o diretor René Sampaio realizar o que seria o visual daquela canção única, cheia de versos melódicos e que relata a vida de João de Santo Cristo, sua triste realidade social e sua paixão tórrida com Maria Lúcia, que era o oposto dele, mas vive seus próprios dilemas com uma vida sem perspectivas.

Fazer essa transposição não deve ter sido nada fácil. Apesar de tocar num tema comum do cinema nacional - tráfico de drogas, corrupção, preconceito étnico e social, o consumo de drogas na classe média e o contexto político degradado pela ditadura no fim do anos 80 - a missão era complicada por se trata de uma música marcante, um verdadeiro clássico do rock nacional. Coube o diretor fazer algumas alterações na narrativa da canção, que obviamente tem muitos divagações que não dariam para transpor de maneira clara à uma plateia acostumada com uma estrutura tradicional, e assim o permitiu tratar a história de maneira mais coerente com uma realidade. O grande problema da obra, que tem seus vários momentos bons, principalmente os ligado à Maria Lúcia (Ísis Valverde), é seguir à risca o que já foi visto anteriormente em outros filmes, quase sem novidades. 

Não é difícil assimilar vários momentos do longa com filmes desde Meu Nome não é Johnny (2008) até Cidade de Deus (2002) - a situação mais marcante é quando João (Fabrício Boliveira) sai da cadeia, sedento por vingança e por alguns momentos parecia que ia soltar "meu nome é zé pequeno". A temática sobre o abandono de classes sociais mais marginalizadas, a relação do tráfico de drogas e os consumidores da classe média, está tão banalizada que faz tempos que os produtores deixaram de lado a temática. Mesmo que correta, a escolha do diretor de deixar a música apenas como um fantasma ao redor do longa - para assim não parecer um videoclipe gigante - teve seu lado negativo que é enfraquecer a lenda em torno da história, o que o banaliza e o faz ficar à sombra da canção.

No entanto, Faroeste Caboclo é mais uma das várias tentativas bem sucedidas do cinema brasileiro de explorar diferentes fatos da cultura em si, e fazer uma transposição genuinamente cheia de boas intenções. As atuações são ótimas, assim como a estética dada ao longa, a fotografia por vezes sombria e em outras partes ajudando o filme ter a cara de um velho oeste (o que de fato é a intenção da história visto o excesso de violência e vingança). Pena que mesmo interessante visualmente, tenha demorada tanto para chegar às telas, e assim tenha perdido o fôlego ao longo do caminho com tantos títulos do gênero, que são melhores.