maio 30, 2013

Crítica: dirigido por Robert Redford, 'Sem Proteção', discute ativismo x terrorismo

Diretor engajado tem ótimas intenções, mas longa não decola nem com elenco estelar 


Considerado um dos atores e diretores de maior prestígio na indústria hollywoodiana, Robert Redford tem sido conhecido por ser também um dos maiores militantes políticos dentro dos Estados Unidos e, cada vez mais, levando discussões e debates para as salas de cinema. Adotando uma posição geralmente neutra dentro de debates em seus roteiros, como o visto no excepcional Leões e Cordeiros (EUA, 2007), seu novo longa, Sem Proteção (EUA, 2012) assume riscos mais acentuados ao refletir sobre ativismo esquerdista na vertente pacifista, mas que tem um lado mais radical por parte de alguma militância que acaba entrando no terreno do terrorismo.

O filme narra a história de Jim Grant (Redford) um advogado de direitos civis, viúvo, que cuida de sua pequena filha. Após a prisão de uma terrorista (Susan Sarandon), ex-militante do grupo radical americano Weather Underground e que participou de um grande assalto à banco em 1968 - momento da qual, o grupo se aproveitava dos protestos contra a guerra no Vietnã -, Grant fica na mira do jovem jornalista Ben Shepard (Shia LaBeouf) que logo descobre sua ligação com o grupo e  publica a história, causando alvoroço. Com isso, Jim acaba sendo perseguido pelo FBI (encabeçado por atores como Terrence Howard e a jovem Anna Kendrick). Enquanto isso, Shepard vai juntando peças e descobre que Jim tem um plano muito maior que aparenta ser uma simples fuga.

Com aparição de nomes como Julie Christie, Richard Jenkins, Stanley Tucci e Nick Nolte, a história que deveria remeter à um grande mistério envolvente, se perde em diálogos arrastados (não muito diferentes de Leões e Cordeiros, porém menos impactantes) e cai em clichês de filmes do gênero, como o fato do FBI ter sindo enganado por 30 anos, e agora precisa usar todas suas artimanhas tecnológicas pra perseguir o fugitivo septuagenário. O ritmo do filme, é o equivalente a Redford correndo pra lá e para cá, sugere algum charme oriundo de seus filmes passados, em especial ao espetacular Todos os Homens do Presidente (EUA, 1976), mas perde o fôlego logo. A constelação que participa do filme, parece mais querer enganar o roteiro frágil, mas que é esticado ao máximo e assim deixar espaço para as divagações políticas de Redford.

O longa reflete basicamente a mudança de valores sobre o ativismo político. O embate entre Jim Grant e Ben Shepard é exatamente sobre a falta de paixão nos jovens de hoje em ideologias políticas. Tudo é manchete sem qualquer questionamento sobre os sentimentos dos retratados em histórias em questão. O imediatismo que fere princípios e o lado poético de grandes movimentos. Todos perdidos nessa cultura do twitter e facebook. Muito se tem em comum entre Ben Shepard e René Saavedra, personagem de Gael García Bernal no recente filme chileno No, sobre a queda do ditador August Pinochet. Ambos estão sedados pela suas profissões - René é um publicitário - que envolvidas pela necessidade capitalista, imediata, esquecem o passado e se importam com o agora, em cumprir as pressões do mercado - o jornalismo, que anda em crise, ainda mais desesperado e fadado ao ostracismo.

O problema é que Redford tem um discurso mais claro voltado ao esquerdismo, inclusive participa de campanhas democratas dentro dos EUA. Se em Leões e Cordeiros a filosofia sobre o que é a vida em meio a essas ideologias de direita e esquerda é tratado de forma argumentativa e marcante, em Sem Proteção seu debate soa hipócrita, ainda mais quando o próprio governo Obama se vê envolvido em casos de invasão à liberdade de imprensa, inclusive com jornalistas sendo alvos de grampos telefônicos. E ainda tem o fato de o FBI ser mostrado como aquela entidade obsessiva e até fascista, esquecendo que tudo tem ligação com o que ele defende, o momento contraditório e sem qualquer sentido ideológico do governo americano. Redford poderia voltar a ser mais neutro, pra assim não cair em contradição, ou pelo menos, fazer um filme tão interessante como o chileno, deixando para o público refletir, sem precisar de mostrar uma cena de um professor ensinando Marx numa faculdade. Em tempos de terrorismo e violência, o público não merece tanto didatismo ideológico como justificativa.

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