dezembro 12, 2008

Cinema nacional sem preconceitos

Linha de Passe, Última parada 174 e Romance: cinema nacional de qualidade.


Ir ao cinema ultimamente pra mim tem sido, digamos, prazeroso. E isso não se deve as superproduções hollywoodianas ou filmes cults europeus e asiáticos. O mérito vai todo para o nosso simplório cinema brasileiro. Resultado de um investimento maior e da colaboração - mesmo que forçada das grandes empresas, que ganham isenção na hora de pagar impostos quando apóiam tal investimento (por isso tantos patrocinadores nos créditos iniciais) – tem surtido resultado memorável. Mesmo que seja uma adaptação da TV ou uma comédia inflada com astros da TV Globo, o cinema brasileiro tem tudo para crescer e enfim ser tratado como uma grande indústria que gera empregos e faz o Brasil crescer como forma de exportar e importar nossa cultura e arte.

Se antes o nosso cinema era conhecido por sangue ou risos, da qual, se destacavam produções como as de Guel Arraes (O Auto da Compadecida, Lisbela e o Prisioneiro), Bruno Barreto (O que é isso companheiro?), Walter Salles (Central do Brasil) e Fernando Meirelles (Cidade de Deus) e Hector Babenco (Carandiru), ele agora tem mais diversidade, tem mais acertos que erros, o que pode dar mais escolha ao telespectador. Ao decorrer do tempo, esses diretores que começam a ganhar visibilidade internacional, dão lugar a novos cineastas que acreditam nos potenciais roteiros brasileiros a serem absorvidos da nossa cultura para a grande tela. É o caso do sucesso absoluto de Tropa de Elite, que foi o auge da temática violenta da real situação social do Brasil. Meu nome não é Johnny até tentou nesse ano inovar o gênero, foi um grande sucesso, mas está longe do impacto provocado no filme estrelado por Wagner Moura.

Estrelas. É isso que o cinema nacional precisa dar valor. Afinal, não é todo filme que tem Wagner Moura, Selton Melo ou Rodrigo Santoro que é um extremo sucesso. Isso podia ser mais bem trabalhado. Pois, os diretores já estão com seu grande espaço garantido. A seguir, três filmes que merecem destaque:

LINHA DE PASSE



Pra começar, o que merece minha grande consideração é o melancólico e dramático Linha de Passe. Walter Salles volta a dirigir no Brasil depois de passar pelo cinema americano com o remake oriental Água Negra. Anos depois do grande sucesso Central do Brasil, Walter acerta novamente. Especialista em mostrar personagens com sentimentos à flor da pele e a vida limitada que muitas pessoas têm desde seu nascimento até a vida adulta. Histórias de personagens de uma mesma família e seus sonhos remendados por válvulas de escape conhecidas de quem mora nas grandes metrópoles brasileiras. Ser evangélico, criminoso ou jogador de futebol. Ele retrata isso com uma edição que une todos os planos, mostrando que isso tudo é parte de uma sociedade, da qual, a pia continua entupida há tempos e por mais força que você tenha, é difícil desentupir – aproveitei umas das ótimas metáforas do filme para explicar a tal mensagem do longa. Ainda no roteiro, são tratados temas pertinentes a nossa sociedade como ver e o enxergar - em uma cena crucial com o diálogo de um motoboy e um motorista de carro – a falta de esperança, como a criança que entra de ônibus em ônibus à procura do seu pai – sua única informação é que ele é motorista – e o princípio dessa desestrutura familiar: a matriarca completamente perdida, grávida, sem mesmo saber o nome do pai desse filho. Melancólico, envolvente, dramático, violento (psicologicamente falando). Linha de Passe a meu ver é o melhor filme nacional do ano. *****

 Site Oficial do filme: www.paramountpictures.com.br/linhadepasse


 ROMANCE


Romance foi o último visto por mim. E foi uma experiência fantástica. Tudo estava em perfeita sintonia. Trilha sonora, roteiro, atuações, fotografia, edição e direção. Uma qualidade impressionante para um filme que não teria necessidade para tanto, como os filmes de teor mais realista. Guel Arraes marcou sua identidade em transpor uma história de amor, como a de Tristão e Isolda, na narrativa do filme, para o sertão nordestino, mais uma vez com um elenco de peso: Letícia Sabatella, Wagner Moura, Andréa Beltrão e Marco Nanini. Uma história de amor que passa por um momento doloroso com uma separação triste, dolorosa, e que muito me fez lembrar-se do vislumbraste Moulin Rouge. Mas o filme infelizmente tem seus deslizes. Orlando, interpretado pelo Vladmir Brichta, fecha um triângulo amoroso inesperado com Ana (Letícia Sabatella) e Pedro (Wagner Moura). Ana se apaixona pelo mentiroso - o mesmo Orlando, fazendo de tudo para um a papel numa minissérie de TV, inspirada em Tristão e Isolda - que se faz de um morador do sertão. Não se sente o ímpeto de seu amor com Orlando como visto no início do filme, dela pelo Pedro. Se ele talvez não estivesse por perto, daria para entender... Se ele talvez não quisesse Ana mais, mas não. Pedro está ali perto e sabe da relação que Ana e Orlando estão mantendo. Ele não faz nada... Não sente mais ciúmes. É estranho. Passa-se desapercebido até o fim da projeção, mas no final das contas, é difícil de engolir. Destaque para a atriz Andréa Beltrão em ótima forma.

Site oficial do filme: http://www.romanceofilme.com.br/



ÚLTIMA PARADA 174
 

Última Parada 174 foi o escolhido da vez para tentar uma indicação ao Oscar. Depois do "deslize" do ano passado com O ano em que meus pais saíram de férias, pois mesmo sendo excepcional não trouxe a popularidade e o debate conquistado por Tropa de Elite. Dirigido por Bruno Barreto, o filme é baseado no documentário de José Padilha sobre o seqüestro do ônibus 174 no Rio de Janeiro que levou a morte de uma estudante e do próprio criminoso. Mas o filme tenta mostrar um lado que muitos não vêm. O que levou Sandro do Nascimento a cometer tal crime. Esse é diferencial do filme, retratando sua triste infância em uma favela, sem a mãe e cercado de criminalidade, o que as pessoas não querem ver, pois pra muitos ele é apenas um assassino, Sandro o assassino, e não interessa o antes e nem o depois. O final surpreendeu a mim que não lembrava do desfecho da história verdadeira, em relação a mãe de Sandro, e isso foi algo bem realizado. Outro ponto forte é o final, com o tom melancólico dando um ar de que isso não é o fim dessa triste realidade. Infelizmente o filme não veio antes e explorou a temática batida da violência, mesmo que com uma crítica mais interessante que alguns antecessores. Chances pro Oscar eu não sei, mas que é um ótimo filme, isso eu não tenho dúvidas.

Site Oficial do filme: www.ultimaparada174.com.br
 
E daqui a pouco tem mais novidades no novo Project Monkeys!

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