julho 18, 2013

Crítica: 'Antes da Meia-Noite' finaliza trilogia com bom humor e reflexões

Filme é um dos melhores do ano até então


Em 1995 o diretor Richard Linklater ganhou os holofotes com o romance Antes do Amanhecer (Before Sunrise), estrelado por um jovem Ethan Hawke e uma charmosa atriz francesa Julie Delpy. A trama era simples, consistindo em um casal, Jesse e Céline, que se conhece em um trem que tinha como destino Viena e, quando chegam, resolvem passar o tempo, andando, conversando, filosofando e flertando, antes do dia clarear e depois cada um seguiria seu próprio caminho. A ideia que partiu de um fato real que aconteceu com o diretor e ele nunca mais viu a garota após essa noite especial. Perto do lançamento do longa, ele tinha esperanças que ela se identificasse com a história e aparecesse no lançamento, porém, descobrira posteriormente sua morte antes mesmo do filme ser lançado. Esse foi o mote da continuação que se passa em 2004, Antes do Por do Sol (Before Sunset), da qual, Jesse lança um livro sobre a noite, atraindo a atenção de Céline. Agora mais nove anos se passam, e mais um fragmento da vida do casal é mostrada em Antes da Meia-Noite (Before Midnight, 2013).

Essa peculiar trilogia, ganhou fãs adeptos que logo se identificaram com os encontros e desencontros do casal. Se no primeiro filme, a história ainda não sabia para onde ir, sem nenhuma pretensão de ser algo além do que um experimento sobre o acaso e o amor, deixando no final o público imaginar o que aconteceria entre os dois, sua continuação foi longe em desfazer o tom de conto de fadas e incluir a realidade na vida daqueles personagens. Seu bate-papo por Paris vai ganhando ares mais subjetivos, com tons politizados, decepções, arrependimentos, nostalgia e uma tensão sexual bem perceptível. Jesse que viveu o "sonho americano" se afundou em um casamento sem amor e cumplicidade, parecia ter lançado o livro sobre sua experiência para atrair aquela pessoa que por um período mudou sua vida. Ela teve seus namorados, estudou nos Estados Unidos - mas não suporta o país - trabalhou em prol de melhorar o mundo, mas dá para sentir um vazio dramático naquela tranquila vida parisiense.

Antes da Meia-Noite, chega para, finalmente, mostrar o casal junto. Chega de flertes, de ensaios sobre a vida separados e como seriam eles juntos. Ali está o estado bruto do que é o casal apaixonado que se conheceu há 18 anos e agora tem filhos para dividir a atenção. O longa se passa com o casal de férias na Grécia, aproveitando os últimos dias de folga do filho de Jesse, fruto do ex-casamento com uma "insuportável" mulher. Seus 40 anos começam a pesar e ele sente que anda distante do filho, já que agora mora em Paris com Céline. De uma primeira conversa no carro, logo é jogada a questão, junto com outras reflexões sobre a qualidade do trabalho deles como pais. Com mais cenas contextualizando o momento, o diretor sai um pouco do foco do casal e mostra outros personagens (também casais) e assim se aprofundar em diferentes olhares sobre o que é o amor e a vida.

Ali estão reunidos no almoço: um jovem casal sonhador (que bem lembra a inteligência e sagacidade de Jesse e Céline quando se conheceram), um casal um pouco mais velho que eles e um idoso e uma senhora, ambos viúvos. Cada fala que transcende o humor do ridículo em estereotipar homens que tem como fato mais importante da existência seus próprios pênis, assim como o que é importante para um relacionamento durar. Após esse ato, parte-se finalmente para as andanças do casal pela rústica Grécia, esperando que mais uma vez o local acenda neles novos sentimentos que precisam serem consumidos. Como bem citado, o humor característico deles, vai ganhando aos poucos contornos um pouco mais ácidos, ríspidos que logo chegam ao auge no Hotel, em que praticamente duelam como numa tragédia grega.

Nessas conversas tumultuados, ofensivas, todo aquele ar romântico e sublime dos filmes anteriores vai dando espaço a uma verdadeira reflexão sobre o olhar feminista sobre a injustiça no equilíbrio da família e os deveres com os filhos. Perdendo o controle, fatos de casos antigos e supostas traições criam um clima ainda mais tóxico. Claro, que Linklater mostra isso com bons diálogos mesclando a ironia de Céline e a paciência de Jesse, para assim o ato render boas frases, jogar questões metafóricas e sempre buscar acrescentar no relacionamento dos dois. Fica muito subjetivo também, o olhar psicanalítico que o diretor dá sobre o casamento, mais parecido com um reflexo da infância do homem que busca na mulher sua representação de mãe - o fetiche dos seios permeia pela tela por alguns poucos instantes. Seria esse o causador dos maiores problemas do casamento? Essa dificuldade dos homens se estabelecerem na família, já que se acham no lugar de também serem filhos e não pais?

O ato final vai afundo sem, obviamente, tentar responder essas questões complexas e provavelmente sem solução. Apenas dá uma dica bem vinda que pode ajudar. Com tantas mudanças que ocorrem ao decorrer do tempo, as decepções, os momentos felizes, o cansaço da rotina e outras, o importante é entender o tempo como uma percepção, como Jesse mesmo indaga. Nesse tempo físico, da qual, as lembranças acabam sendo deixadas de lado, nada custa uma boa "viagem no tempo" para relembrar o que motivou esse entrelaço de casais que se conhecem de maneira tão lírica, poética e poderiam sempre levar isso como motivação para construírem uma relação duradoura. Não a relação de novela, mas aquela que tem como importante o companheirismo, o respeito, a cumplicidade. O filme retrata de forma brilhante esse casal tão comum, mas ao mesmo tempo tão único, e que o tempo só lhes fez bem.

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