julho 23, 2013

Crítica: 'O Homem de Aço' traz um novo (e bom) rumo para o herói

Uma bela repaginada do herói desbotado


Na história do cinema, o Super Homem tem uma vida um tanto peculiar. Seu sucesso dos quadrinhos foi logo repetido nas telas com o ótimo filme de 1978, Superman - O Filme, que já previa o alto investimento atual com nomes de peso no elenco como Marlon Brando e Gene Hackman (além de apresentar Christopher Reeve, que ficou marcado no papel) e efeitos especiais muito bons para época. Após uma continuação bem sucedida em 1980, outras três sequências foram produzidas, uma em 1983, outra em 1987 (que finalizou um ciclo) e um retorno mal sucedido, em vários sentidos, em 2006. Em uma nova abordagem partindo do começo da história, o longa se aproveita de um contexto favorável para o resgate do herói que, apesar de ter um dos filmes mais idolatrados na cultura, há tempos sofre para ganhar destaque na dura concorrência entre Homem Aranha, Homem de Ferro, Hulk, X-Mens e, seu amigo, Batman. Eis que, chega aos cinema O Homem de Aço (2013).

O longa dirigido por Zack Snyder apresenta um novo reinício com grandes pretensões de gerar sequências e assim realizar o sonho da Warner Bros que precisa correr atrás do tempo perdido, ainda mais depois que a concorrente Marvel ganhou vida própria na industria cinematográfica e tem feito muito dinheiro com os heróis que sobraram em seu casting, conquistando o ápice no ano passado com o mega lançamento de Os Vingadores. A Warner que é dona dos heróis da DC Comics - casa dos personagens da Liga da Justiça - precisa inserir cada integrante em longas e assim lançar o filme do grupo reunido, como tem sido seus planos. Sua dificuldade vem do fato de que quando a Marvel Studios mostrou serviço, a Warner estava em meio a uma lucrativa franquia de Batman, dirigido por Christopher Nolan, e o receio de retomar a história de Super Homem, após o fiasco do longa de 2006. No meio desse caminho, ainda veio o fracasso de outros personagens da mesma empresa, como o filme do Lanterna Verde (2011) e a série de TV da Mulher Maravilha - cancelada pela NBC apenas com o episódio piloto gravado. Porém, com o tempo passando e empoeirando os fracassos e sucessos, foi confirmada a participação do Batman em Homem de Aço 2.

A notícia vem apenas para comprovar o que era esperado após um massante trabalho de marketing - nunca vi tanto trailer de um filme em diferentes sessões. O Homem de Aço acabou sendo um sucesso de bilheteria, sem chegar a ser um Cavaleiro das Trevas e muito menos um Homem de Ferro, mas apagou a má impressão que se tinha do herói. Mas não foi apenas o marketing que o salvou. A reformulação foi bem intensa em diversos âmbitos. Não adianta apenas escurecê-la, a tal cueca por fora da roupa finalmente já não existe mais - característica que denotava ingenuidade das diferentes épocas - e o filme percorreu um caminho mais sério, de visual austero e focado na ação. Snyder que tem experiência com longas de ação como 300 (2006), Sucker Punch - Mundo Surreal (2011) e a ótima adaptação do dramático e complexo quadrinho também da DC Comics, Watchmen (2009), conseguiu equilibrar seus exageros dando alguma profundidade no herói. O resultado é uma releitura rica dos dois primeiros filmes, seja em um roteiro melhor trabalhado ou no visual que tem um orçamento e tecnologias infinitamente superiores.

Seus atos remetem diretamente ao que foi visto nos filmes de 78 e 80 (apenas deixando de fora o grande vilão Lex Lurthor), com pequenas mudanças na construção do roteiro - são inseridos flashbacks para mostrar o crescimento de Clark Kent na família de humanos, fato que enriqueceu a psicologia em torno da evolução moral do personagem, tanto no seu aprendizado quanto na forma de pôr em ação. Tais semelhanças e mudanças foram significativas para fazer de O Homem de Aço um filme fácil, divertido, mas ao mesmo tempo que desafie o espectador, revertendo a banalidade de blockbusters que, de praxe, subestimam a capacidade do público. Outra questão foi na estética do filme, da qual, Znyder não caiu na armadilha que poderia surgir se seguisse a escuridão da saga de Nolan nos filmes do Batman. Então apresentou uma obra, cheia de vida e efeitos visuais de primeira. A ação desenfreada - não basta um personagem ser arremessado para o espaço, ele precisa encontrar um satélite no meio do caminho - ganha um bom equilíbrio com os flashbacks com planos contra a luz e câmera na mão, tremida, à la o cultuado A Árvore da Vida (2011) de Terrence Malick.

As atuações também estão condensadas nesse roteiro equilibrado dando chance a atores novatos como Henry Cavill e Amy Adams conseguirem manter o nível dos veteranos que tem nomes expressivos como Russell Crowe, Kevin Costner e Diane Lane. Foi também revelado para o grande público, mesmo já sendo indicado ao Oscar, o bom Michael Shannon, que ultimamente rouba a cena na série Boardwalk Empire - no longa ele é o vilão Zod. Contudo, nem tudo se saiu tão bem. O roteiro tem algumas passagens questionáveis como a morte do pai "adotivo" de Clark, que acaba perdendo a vida para salvar um cachorro; o excesso de Crowe querendo explicar a mesma coisa dezenas de vezes; poucas cenas de humor; e a prisão dos vilões que, banidos, acabam com a situação revertida após a explosão de Krypton, e uma nova chance surge transformando o castigo em uma salvação. A longa duração também deixa à desejar já que se trata de um filme "pipoca".

Entretanto, O Homem de Aço ainda funciona como bom entretenimento, que busca nas suas referências dos clássicos e no melhor da indústria cinematográfica em questões técnicas, para assim construir uma obra sólida e levantar a cabeça do herói que perdia o brilho e corria o risco de cair de divisão. O discurso de proteger o american way of life, deu lugar para um tema mais relevante como o bullying e uma mensagem mais universal como a compaixão pelo ser humano, mesmo este sendo tão variável nas questões morais. Soma-se a isso questões psicanalíticas (busca pela identidade em meio aos conflitos familiares e a perda do pai), filosóficas (vida fora da terra) e religiosas (o herói que vai se confessar na igreja). Esse retrato mais complexo do herói o faz sobressair, por exemplo, em qualquer outro filme da Marvel Studios, que foca na diversão, sem trazer algo a mais em sua justificativa de existir. Nos quadrinhos, geralmente, essas histórias vão à fundo disfarçadas de fantasia para tocar em temas espinhosos e nessa transposição para o cinema não deviam deixar essa essência ser perdida. Afinal, Superman é praticamente uma representação cristã para a humanidade que busca nos céus uma salvação e, nessa sociedade tão conturbada, esse tipo de heroísmo sempre tem espaço, pois não faltam os vilões.

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