março 22, 2013

Crítica: 'O Mestre' pondera o poder do vício na crença e a necessidade de um líder

Paul Thomas Anderson faz mais um debate emblemático 


A fé move montanhas. Não existe frase mais polêmica para aqueles prós e contras que acreditam ou não em alguma crença. Tal argumento por mais que seja rebatido pelos céticos, será sempre uma ilustração forte e implacável para os religiosos. E querendo ou não, todo ser humano está propenso à seguir algum ideal ou filosofia - e consequentemente, um líder. Em O Mestre (The Master, 2012) o diretor Paul Thomas Anderson traça um paralelo de como quanto mais primitivo o homem, mais necessário sua dose diária da crença - por mais absurda que ela seja. Os sentimentos de segurança e esperança, sempre serão os fatores motivadores para alcançar algum caminho de clareza espiritual ou racionalidade. E o poder de persuasão é uma ferramenta mágica nesses casos - e é bem bobagem se prender na polêmica da cientologia, sua mensagem vai além disso.

O mais novo longa de Anderson caminha no terreno seguro de sua obra prima anterior, Sangue Negro (2007), da qual, mostrava um duelo entre a religião e o capitalismo como se fosse uma disputa mortal entre a selvageria da ambição e a prostituição cristã atrás de apoio. Agora, o diretor, conta mais uma história original e que capta a necessidade humana por ser guiada por um mentor, não interessa bem se é um líder espiritual, cientista ou um médico. Seguindo o mesmo estilo cru, visualmente estridente (e belo, com destaque para a fotografia grandiosa) e abusando de analogias para refletir o debate, Anderson é um grande maestro. Já havia provado em seu currículo que indica seu exímio trabalho, além de diretor, mas como roteirista em obras primorosas como Boogie Nights (1997) e Magnólia (1999). O que não foi tão bem desenvolvido em Sangue Negro (por falta de necessidade), que tratava a religião apenas na sua forma como instituição e Igreja, agora ganha contornos mais "espirituais".

O longa segue a trajetória do marinheiro Freddie Quell (Joaquin Phoenix) que após ter participado da Segunda Guerra Mundial, busca seguir sua vida (apesar de o comum, nessa situação, é estar sem perspectiva e sempre à deriva). Vale lembrar que neste período, os Estados Unidos vivia uma mudança comportamental que refletia ainda lentamente na espiritualidade. Porém, além de traumas causados quando jovem (um comportamento sexual desequilibrado, talvez dessa juventude tomada pela servidão), Freddie ainda apresenta o agravante de problemas oriundos do combate, como ansiedade e uma atitude constantemente violenta - intensificados por ser alcoólatra. Ao conhecer Lancaster Dodd (Phillip Seymour Hoffman), um carismático líder de uma fraternidade religiosa conhecida como A Causa, Freddie passa a seguir seus ensinamentos, em troca da cura de seu comportamento. Aos poucos essa seita que mistura experiências parecidas com a parapsicologia e uma dose religiosa carregada de otimismo, fazem o homem ficar dependente dos ensinamentos de seu mestre, Lancaster.


Para criticar o círculo formado pela A Causa, o diretor insere um personagem completamente deteriorado, tanto fisicamente quanto moralmente, para tentar se curar por ela. Freddie está praticamente em um nível primitivo de consciência. A ótima atuação de Joaquin Phoenix denota bem o animal que ele é. Os trejeitos curvados do personagem e seu desequilíbrio emocional, praticamente o fazem parecer um gorila aflito durante o estresse que passa nos experimentos. Freddie se transforma em uma cobaia para tentar se curar pelas mentiras da seita. Sim. O diretor não esconde que A Causa, é uma crença que se apóia numa falsa ciência para angariar fiéis. Seja pela maneira em que é pregada - naturalmente, apoiada pelo forte carisma de seu líder - até a condução criminosa ao redor (Lancaster chega ser preso por estelionato). Seu segundo livro também tem problemas de coerência em relação à obra anterior - mostrando um jeito mais abrangente de conquistar adeptos: a mudança de "você poderia se lembrar" para "você consegue imaginar" em um dos testes importantes de hipnose. Uma clara referência ao charlatanismo que a seita parece se basear.

Em outros termos, A Causa também tem seus fiéis mostrados completamente mergulhados na hipocrisia. A princípio a chegada de Freddie parece inofensiva, mas aos poucos vai incomodando os outros seguidores de Lancaster - provavelmente por ele não conseguir se curar. Seja a nora do líder que se interessa sexualmente por ele (depois ela mente, dizendo que é ele quem está interessado nela), até mesmo seus problemas de bebida - o diretor faz uma grande síntese da falsa moral, quando em um jantar, em que criticam o comportamento de Freddie, um caminho de taças de vinho sobrepostos na mesa, chega até Lancaster num plano fenomenal. Porém, essa sutileza é rara, pois em outras cenas mais sexuais a história é mais clara. Em um momento, Freddie manda um recado para uma mulher que está ouvindo sobre a seita ainda na embarcação (a mensagem que escuta, reflete sobre a superioridade do homem contra o animal e sobre o controle de seus impulsos negativos) e Freddie escreve a singela frase "Vamos foder?", com a negativa, vai beber (um ser humano seguindo seus instintos comuns trocando um impulso pelo outro). Em outro momento, Lancaster é manipulado pela mulher (Amy Adams) por meio de um diálogo movido por masturbação - um sublime ato de controle animal pelos instintos mais primitivos e comuns.

Só que mais clara ainda a amostra de que a fraternidade é uma boa embromação, se faz no comportamento de Freddie que não muda. Sua violência é descarregada no editor dos livros de Lancaster que critica o novo trabalho; sua compulsão pela bebida continua presente; sua propulsão à auto destruição fica bem clara na cena em que alcança alta velocidade ao pilotar uma moto no deserto; e obviamente a cena final, da qual, ele claramente debocha de seus aprendizados enquanto faz o que realmente seu corpo lhe implora: sexo. Para Paul Thomas Anderson, a crença de uma religião é o mesmo que um vício em álcool e sexo. Funciona como uma válvula de escape, mas não somente pelo seu poder de acreditar e se sentir bem, mas apenas pela necessidade prazerosa de seguir um líder, um mestre. É o poder imponente que esses guias influenciam e tocam seus seguidores (basta reparar na comoção quando Lancaster apenas se propõe a cantar).

No final das contas, O Mestre termina muito bem mostrando a origem dos problemas de Freddie. Quando na dispensa pelo seu trabalho na guerra lhe oferecem ajuda de um terapeuta, ele não leva a sério a questão. A cena que finaliza o filme é obviamente Freddie não fazendo sexo com sua figura feminina monumental construída na areia da praia, mas apenas dormindo em seu leito maternal, como uma criança solitária e carente (não é a toa que ele, já adulto, parece um adolescente quando se apaixona pelo amor de sua vida, essa sim adolescente). Os problemas desencadeados no front de batalha apenas desenterraram a raiz de todos os seus problemas humanos: sua infância, sua adolescência e a relação com sua família (ele chega citar um ato sexual com uma tia). Não é espiritual, nem uma questão de fé.

Mas até lá, após o protagonista desacreditar em tudo que lhe fora apresentado - quase seguindo a ideia por trás de Laranja Mecânica (1968) - O Mestre foca também de forma triunfal no mito do líder, uma necessidade crucial para o ser humano, não importa a crença ou a descrença, sempre existe um nome para se seguir e se deixar seduzir. Mesmo que suas ideias, acabem sendo furadas - afinal quem acredita em líderes controversos como ditadores ou religiosos condenados, não prova isso? No fim, a ideia de que as montanhas serão movidas, é sempre acalentadora... Só não mais que o colo de nossa própria mãe.

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