março 19, 2013

Crítica: 'O Voo' e a turbulência antes da aterrissagem

Robert Zemeckis apresenta o herói dos novos tempos


Em proporções diferentes, pode-se dizer que Robert Zemeckis e Steven Spielberg possuem uma carreira bem parecida. Ambos possuem desde clássicos que marcaram a cultura pop até sucessos consagrados pela crítica e que firmaram o nome da história do cinema. Zemeckis tem em seu currículo longas como Uma Cilada para Roger Rabbit (1988), De Volta para o Futuro I e II (1989 e 1990), Forrest Gump - O Contador de Histórias (1994), Contato (1997) e Naúfrago (2000) - além de uma extensa lista como produtor. Depois de uma não tão bem sucedida investida em animações que tem como estilo a captura de movimentos - O Expresso Polar, A Lenda de Beowulf e O Fantasmas de Scrooge, ele ressurge dirigindo Denzel Washington com uma das melhores atuações do ano em O Voo (Flight, 2012).

O longa conta uma história que muito tem semelhanças com eventos reais. É o caso dos pilotos que se tornam heróis nacionais após conseguirem salvar pessoas de um acidente aéreo causado por alguma pane. Geralmente, não existe meio termo, em diversos casos o piloto ou é responsabilizado pelo acidente, ou é glorificado por ter conseguido pousar mesmo em condições desastrosas. Em O Voo, Zemeckis propõe desconstruir o mito e mostrar do piloto um herói controverso. Apesar de ter salvo vidas, a trama não esconde que Whip Whitaker (Washington) é alcoólatra e com problemas familiares causados pela bebida. O que começa como uma trama de um herói, vai se transformando num drama de negação sobre a aceitação de uma doença, até chegar no clímax que é o julgamento do caso e sua redenção.

Esse tipo de situação nos dias de hoje é tão comum que facilmente O Voo pode-se confundir com o advento de "baseado em fatos reais". A glorificação de pilotos e os heróis construídos após tragédias, quase sempre guarda elementos não tão heróicos quando são investigados e tem suas histórias aprofundadas e assim mexem com a opinião pública. Porém, no caso do filme, o foco é no drama pessoal do protagonista e suas mentiras para se safar. Com um time formado em torno de si - o traficante (vivido pelo cômico John Goodman), o advogado Hugh Lang (Don Cheadle) e o amigo do sindicato de pilotos Charlie Anderson (Bruce Greenwood) - Whip vai contornando a situação da mesma forma que com muita ousadia safou quase 100 passageiros da morte.

O Voo ainda expande a reflexão moral do assunto incluindo elementos em outras vertentes. Apresenta personagens secundários com problemas semelhantes, crítica ligeiramente o corporativismo e apresenta a religião como uma cega válvula de escape. A direção de Zemeckis é envolvente quando se trata de uma temática bem batida no cinema. Seus planos exaltam a dominação de Whip pela bebida - as cenas na casa dele isolado da sociedade é a que melhor representa os problemas do protagonista, e não necessariamente àquelas dele literalmente bebendo e cheirando uma carreira de cocaína. Em outros momentos, o diretor dá uma liberdade muito grande aos atores brilharem - algo não muito diferente do que foi visto em Naúfrago, que fez Tom Hanks mais uma vez sair elogiado num papel impecável.


O longa é uma síntese de um drama pessoal posto nos holofotes numa situação e contexto que remete ao mito dos heróis humanizados dos dias de hoje. Reflete a vida e os problemas relacionados, tratando-os como um turbulento voo e uma difícil aterrissagem. Evoca uma tempestade sentimental e o desespero para não sair molhado, mesmo quando se está no fundo do poço. Retrata de maneira, mesmo um tanto moralista, uma doença rasteira e que domina a percepção humana como uma falha mecânica incapaz de conserto se não for primeiro aceito e compreendido. No fim, venceu a força de vontade e a vida, em todos os sentidos. 

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