abril 06, 2013

Crítica: 'Downton Abbey' estreia cheio de intrigas e com produção impecável

Seriado mostra impiedosa hierarquia imergindo junto com o Titanic no início do século XX


O ano é 1912, o mês abril. Afunda o "inafundável" Titanic, que partiu da Inglaterra rumo aos Estados Unidos e marcou, com tristeza, uma das maiores tragédias da história. Mais do que isso, o navio afundava levando consigo, a imagem simbólica de separação entre classes, preconceito e injustiça. Como visto na obra cinematográfica de 1997 e em documentos, o resgate foi predominado em salvar a classe social mais alta, distinguindo e abrindo ainda mais uma fenda social. As condições eram diferenciadas - não muito diferente do que hoje em determinados serviços - mas o desastre funcionou como reflexão. Tal ferida social é dissecada na excepcional série inglesa Downton Abbey, que estreou na última quinta feira (04), no GNT - depois de sucesso entre os ingleses e, mais recentemente, americanos.

Centrado numa família aristocrata inglesa, o seriado vai à fundo ao mostrar como funcionava as engrenagens de uma rica propriedade, desde seus empregados até os planos da família central para não perdê-la, após a morte dos que seriam os herdeiros - aí entrou o Titanic na história. Trata-se da família Crawley que tem  Robert (Hugh Bonneville), Conde de Grantham e senhor de Downton Abbey, sua esposa Cora Crawley (Elizabeth McGovern), americana e Condessa de Grantham, e as filhas: a mais velha, Lady Mary Crawley (Michelle Dockery), a do meio Lady Edith Crawley (Laura Carmichael) e, a mais nova, Lady Sybil Crawley (Jessica Brown Findlay). A trama deles centra-se em encontrar pretendentes para as filhas, pois na falta de um herdeiro homem, eles ficam sob risco de perder a propriedade, pois Mary se casaria com um primo de Robert, assegurando a residência. Então, vão atrás de Mr. Matthew Crawley (Dan Stevens), primo em terceiro grau de Robert. Ainda nesse núcleo estão a sempre ótima Maggie Smith como a brigona sarcástica Violet Crawley, Condessa de Grantham, mãe de Robert e Penelope Wilton como Mrs Isobel Crawley, médica e mãe de Matthew.

Já na outra parte da história, bem no subsolo, estão os criados: o rígido mordomo Charles Carson (Jim Carter) que preza pelo padrão de qualidade dos serviços gerais; a governanta sonhadora Elsie Hughes (Phyllis Logan); a maquiavélica criada pessoal de Cora, Sarah O'Brien (Siobhan Finneran); o lacaio ambicioso e inescrupuloso Thomas Barrow (Rob James-Collier); o lacaio novato William Mason (Thomas Howes); a criada líder Anna Smith (Joanne Froggatt); entre outros. Eles são surpreendidos com a chegada de John Bates (Brendan Coyle) que chega pra ser ajudante de Robert, porém, com problemas no joelho é alvo de preconceito e armações de alguns empregados que, cada um, defende seus interesses de tirá-lo do cargo. Mas ele vai contar com o apoio de alguns, e principalmente de Robert, que já foi seu companheiro em um combate.

Eu já conferi a primeira temporada, que além garantir um bom entretenimento - apresentando um roteiro dinâmico, cheio de intrigas e um recorrente humor - ainda desperta um interesse de visualizar como era a difícil hierarquia de classes em tempos de mudanças no contexto histórico e adventos tecnológicos - a série vai abordar a entrada do telefone nos próximos capítulos, e já mostrou a dificuldade de alguns com a chegada da energia elétrica. As atuações não são lá o ponto principal, algumas são bem novelísticas, assim como a mão da direção (bem convencional), porém, o visual é hipnótico (principalmente em HD). Principalmente a direção de arte, fotografia, maquiagem, figurino e as locações.

No primeiro momento conhecemos Downton Abbey como conhecemos Titanic no filme de James Cameron. A câmera desliza entre corredores mostrando que os empregados já estão trabalhando. Em outro momento intercalam-se conversas de lacaios entre eles e seus patrões. Aos poucos toda essa hierarquia vai se fragmentando, mesmo que de forma lenta, e assim vão surgindo histórias, amizades e mais intrigas. Uma série pra ser contemplada, analisada e se distrair com o bom roteiro. E que vai mesclando o contexto histórico mais intenso (revoluções e guerra) como peça fundamental para a constante mudança de comportamento dos personagens e a assimilação de todos diante o novos fatos cotidianos. Felizmente, a mudança foi pra melhor e, simbolicamente, o modelo arcaico, afundou com o até então "inafundável" - esses mais impiedosos com um sistema mais maleável e respeitoso, vão aos poucos se afogando. Imperdível.


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