fevereiro 23, 2012

Crítica: 'A Invenção de Hugo Cabret' é encantador

Filme de Martin Scorsese encanta adultos e crianças com facilidade e qualidade


"Eu imaginava o mundo inteiro como uma grande máquina. Máquinas nunca vêm com todas as peças extras, você sabe. Eles sempre vêm com a quantidade exata de que necessitam. Então percebi que, se o mundo inteiro era uma grande máquina, eu não poderia ser uma parte extra. Eu tive que ficar aqui por algum motivo."

De várias citações do filme A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011), está é uma das mais marcantes em todo o longa. Se pra uma criança essa fala pode ser inspiradora e de alguma forma vai ajudá-la a enxergar o mundo de uma maneira mais colorida e otimista - ainda mais depois de conhecer o sofrido protagonista que segue adiante à cada obstáculo da vida -, para um adulto, que não esperava tamanha reflexão numa tarde assistindo um filme infantil, se torna algo marcante e belo. Ela intensifica bem a proposta do primeiro longa "infantil" de Martin Scorsese: um filme complexo emocionalmente, mas contado na forma de fábula infantil.

Renomado diretor por trás de clássicos como Touro Indomável (1976), Taxi Driver (1980), Os Bons Companheiros (1990) e Gangues de Nova York (2002) e até o mais recente que lhe rendeu o Oscar em 2007, Os Infiltrados, Scorsese entra em uma nova fase. Deixando de lado a característica mais comum de seus grandes filmes, a violência, ele desponta com uma produção infantil e em 3D, e se sai bem. A Invenção de Hugo Cabret é muito mais que um visual belíssimo, traz reflexões da vida, do cinema e do tempo.

A história, adaptada da obra de Brian Selznick lançado em 2007, é sobre um órfão, Hugo Cabret (Asa Butterfield), que vive em uma estação de trem em Paris no começo do século 20. Depois da morte de seu pai (Jude Law), um relojoeiro que trabalhava em um museu, Hugo precisa resolver um mistério: seu pai lhe deixou uma mensagem criptografada num androide sentado numa escrivaninha, com uma caneta na mão, aguardando para escrever algo importante. Mas falta uma peça para fazê-lo funcionar. Com a ajuda da jovem Isabelle (Chloë Grace Moretz), ele parte numa aventura que precisa desviar as atenções do amargurado inspetor da estação (Sacha Baron Cohen), da qual, só quer saber de levá-lo para um orfanato. Eis que descobrem que o enigma tem relação direta com o tio da garota, o misterioso Georges Méliès (Ben Kingsley).

Mesmo com o visual semelhante às últimas adaptações lançadas no estilo As Crônicas de Nárnia, Harry Potter e A Bússola de Ouro, essa produção Scorsese tem como trunfo uma qualidade do roteiro impressionante. É uma história contada sem pressa, sem abusar de efeitos escandalosos ou simplesmente forçar no detalhe do 3D. Com muitos diálogos e cenas que focam em expressões e reações dos protagonistas, é de se admirar ao perceber que na sessão não houve hesitação por parte dos mais jovens - o que sabemos que num filme infantil é complicado, mesmo com filmes mais populares. Até mesmo os momentos que são mostrados clipes de filmes antigos, todos parecem gostar do que vêem. No longa, tem até tempo para as duas crianças irem ao cinema!

Se para os adultos leigos a trama vai tomando ares de uma de aula sobre os primórdios do cinema; para os críticos é uma homenagem direta à um grande precursor da industria; e para as crianças é uma aventura emocionante. A Invenção de Hugo Cabret ainda nos faz refletir sobre o mercado cinematográfico em geral. Afinal, nada como lembrar do passado para restabelecer focos no presente. E Hollywood precisa dessa dose de nostalgia e lembranças em momentos de crise de criatividade e franquias desordenadas. O "robô" do filme, não é oco como um de Transformers, ele precisa de uma chave em formato de coração para funcionar e trazer a mensagem essencial. Coração humano, de um humano por trás de sua criação e magia, que pode realizar sonhos mais belos e encantar diversas plateias pelo mundo. A ideia nunca apareceu de forma tão clara, e ironicamente, em 3D.

Trailer: